Terça-feira, Maio 11, 2010

O Livro de Eli, dos Hughes Brothers

Zatoichi é um espadachim japonês cego, personagem fictícia alvo de vinte e seis longas metragens (a mais antiga data de 1962 e a mais recente de 2003, pelas mãos de Takeshi Kitano) e uma série de televisão de quatro temporadas (1974-1979). Fúria Cega (1989), com Rutger Hauer, baseava-se no décimo sétimo filme de Zatoichi (de 1967) e transpunha-o para os EUA actuais (à data de produção). Albert e Allen Hughes atiraram Zatoichi para o futuro e pintaram-no de preto.

O Livro de Eli é um drama profético de inspiração religiosa extremista, inadvertidamente anedótico e mascarado de filme de acção. Profético, porque se passa num futuro pós-apocalíptico; extremista porque estipula que, sem uma Bíblia para guiar os nossos passos, seguir-se-á a anarquia e a perda de humanidade; anedótico porque é fácil confundir Denzel Washington com Steven Seagal, a empilhar corpos em redor quase sem mexer uma palha.

Esta mistura de Zatoichi, A Estrada (2009) e Mad Max (1979), primeiro trabalho do argumentista Gary Whitta, tirou os irmãos Hugues da hibernação (não filmavam desde From Hell, de 2001) e alimentou alguns nomes que nos habituaram a melhor: Denzel Washington, Gary Oldman e Michael Gambon. Jennifer Beals (de volta à ribalta com a série The L Word) tem um papel que a desmerece, Mila Kunis foi um erro de casting e o papel de Tom Waits podia ter sido entregue a qualquer figurante. Para uma película que avança a passo de caracol e não tem uma única cena que se aproveite, todos os actores ligaram o piloto-automático.

Segundo a trama, o sol eliminou a vida na superfície da Terra, através do buraco no ozono, restando apenas uma mão cheia de salteadores e sobreviventes. Trinta anos depois, um herói solitário percorre os EUA para oeste, levando no alforje uma caçadeira, uma catana e a única bíblia em existência. A sua missão é levar a palavra escrita do deus católico para a nova Alexandria, onde estará seguro. O dono de uma miserável aldeia de iniquidade anda à procura do mesmo livro, com vista a usá-lo para subjugar a população às suas ordens. O caminho dos dois vai cruzar-se, numa perda de tempo para todos os envolvidos, plateia incluída.

As incongruências são tantas que se perde a conta. O herói anda de ipod num planeta sem electricidade (ao menos Michael Gambon dá à manivela da sua gafonola), a sua espada é capaz de travar o avanço de uma motosserra, os maus têm carros e motas, quando não há refinarias de petróleo em funcionamento há pelo menos três décadas. O herói tranca a miúda numa gruta (para que esta pare de segui-lo) e vai à sua vida, mas na cena seguinte ela já está na estrada (ninguém sabe como se evadiu) e o herói aparece a tempo de evitar que seja violada (então e o avanço que já levava em relação a ela?). Atrás do herói para se apoderar da bíblia por este transportada, o vilão encontra-o barricado numa velha casa de madeira e, primeiro, faz explodir a habitação com um míssil e depois criva a ruína de balas; não saberá ele que o papel arde facilmente ou que um livro cheio de buracos não se lê facilmente? Por último, referência a um product placement abusivo (um megafone com um adesivo da Motorola, em primeiro plano) e uma curiosidade (a harmonia assobiada por Ray Stevenson foi composta para o filme Era Uma Vez Na América, por Ennio Morricone).

The Book Of Eli 2010

2 Comments:

Blogger astarteia said...

PARABÉNS!



O TEU BLOG FOI NOMEADO PARA OS





TvCinewsAwards 2010



todas as informações em www.tvcinews.wordpress.com

5/17/2010 4:14 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Fui agradecer ao teu blog e não disse nada aqui. quando se sabem os resultados? :)

5/29/2010 7:51 PM  

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