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Alain Resnais está de volta, a revelar uma frescura impensável para os seus 87 anos feitos de sucessivas vagas (desde Hiroshima Meu Amor, de 1959), com uma película bizarra, surrealista e intensa sobre relações humanas entre pessoas neuróticas e perturbadas. É a primeira vez que o realizador baseia o guião num livro já publicado e a escolha recaiu sobre
O Incidente, de Christian Gailly.
Ervas Daninhas apanha o espectador desprevenido e não o larga. Enganadoramente suave ao início, rouba logo de seguida a carteira de uma mulher com joanetes e cabelo cor de cenoura, para depositá-la aos pés de um indivíduo psicologicamente instável, cheio de pensamentos contraditórios e reacções agressivas, que a contacta para devolução dos documentos, convencido de que daí terá de advir um relacionamento sentimental de qualquer sorte.

Resnais preparou o argumento a pensar especificamente nos diálogos do livro, aquilo que mais lhe agradou em Gailly. Encenador, director de fotografia e compositor (Mark Snow, de
X Files) foram instruídos a seguir a mesma linha – contrastes na cor e nos
décors, partituras divergentes para ambientes particulares. A própria figura do narrador participante parece contar uma história diferente daquela a que assistimos, como se fosse inventando ao longo do filme.

Invulgar e eficiente, o filme resultou num prémio especial do júri de Cannes 2010, elogio à longa carreira de Resnais.
Ervas Daninhas cumpre a sua função de entretenimento com panache, interessante ao nível plástico, técnico e narrativo, mas é inegável que a inverosimilhança das situações causa estranheza, tanto mais que algumas incoerências nunca chegam a ser devidamente esclarecidas. O casamento livre do protagonista, o acto criminoso a que alude e pelo qual acha que o reconhecem, a dentista decidir-se a encontrá-lo precisamente depois de ele ter cometido o acto mais vingativo (cortar-lhe os quatro pneus do carro), a amiga da dentista ter-se deixado seduzir por ele no automóvel, etc.
Les Herbes Folles 2009
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