Shutter Island, de Martin Scorcese
Shutter Island baseia-se no romance homónimo de Dennis Lehane, professor de literatura avançada em Harvard e autor de Mystic River e de Vista Pela Última Vez, entretanto filmados, respectivamente, por Clint Eastwood (2003) e Ben Affleck (2007). A sua passagem a celulóide foi originalmente pensada pela Paramount Pictures para a dupla David Fincher e Brad Pitt, entretanto passou pelas mãos de Wolfgang Petersen e finalmente parou nas de Martin Scorcese. A adaptação do romance deve-se a Laeta Laogridis, e aqui começam os problemas. O currículo de Laogridis tem como preciosidades Alexandre (2004), Pathfinder – O Guerreiro do Novo Mundo (2007) e o também medíocre episódio piloto da série Mulher Biónica (2007).
Dois investigadores federais deslocam-se a uma instituição psiquiátrica situada numa ilha, para resolverem o mistério do desaparecimento de uma paciente. Um dos agentes, porém, tem uma agenda própria, porque acha que o assassino da esposa se encontra nessa ilha e que os médicos conduzem experiências proibidas. Mas talvez nada disto seja verdade.
Essa curiosa premissa sucumbe, rapidamente, à falta de subtileza das pistas. O surrealismo dos sonhos do protagonista exige interpretação e não se perde muito tempo a identificar os mecanismos utilizados por Angel Heart – Nas Portas do Inferno (1987) e O Sexto Sentido (1999), aqui descarnados e evidentes, porque são demasiados os elementos que não fazem sentido. O gato tem o rabo todo de fora. No meio de tanta confusão e paranóia, só há uma constante: o herói. Se tudo o resto é absurdo, torna-se fácil desconfiar do truque – está tudo na cabeça dele e o resto serve unicamente para empatar. Por isso, as conclusões finais surgem maçudas e excessivas, a tratar o cinéfilo de imbecil. O extenso flashback explicativo ganhava se fosse breve, suficiente para confirmar o que já era claro. E a ideia de looping também não é nova, aliás foi muito mais interessante em O Diário da Nossa Paixão (2004).
Shutter Island mantém o cinéfilo entretido, enquanto leitura de pistas, mas não é capaz de elevar-se da mediania. Quanto aos actores, Martin Scorcese continua a ser o sustento do inútil Leonardo Di Caprio. Para além dos nomes incisivos de Ben Kingsley e Max Von Sidow e da rede de segurança de Mark Ruffalo, o elenco inclui fugazes cameos de Emily Mortimer, Patricia Clarckson, Elias Koteas e James Earl Haley. Michelle Williams também por lá anda, sempre de cabelo molhado. A banda sonora, barulhenta e incomodativa, sobrepõe-se aos actores em constante incorrecção de registo (por exemplo, sendo sinfonicamente agressiva em momentos intimistas).
Shutter Island 2010
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Várias críticas divergentes desse filme. Acredito que Scorcese produziu uma obra intimista e quando que ele vai largar o DiCaprio ? Sincerament nao sei, rs!
Ótima crítica, abraçs!
Obrigado pelo comentário.
Scorcese entregou os pontos demasiado depressa. Já agora, todas as referências à tomada do campo de Dachau fazem parte do empata, não cumprem a menor função. DiCaprio matou a esposa porque esta matou os filhos e inventou um síndico que pegou fogo ao apartamento e que estava no hospital psiquiatro da ilha de Shutter.
As referências a Dachau, acontecimento de nove anos antes (a história passa-se em 1954), podem relacionar-se com o médico alemão, mas não directamente com a demência do marshal.
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