Quarta-feira, Abril 14, 2010

A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar, de Daniel Alfredson

O jornalista Stieg Larsson faleceu em 2004, aos 50 anos, antes de ver publicados os seus três romances da colecção Millenium. Dado o sucesso póstumo dos mesmos, a produtora sueca Yellow Bird decidu passá-los ao celulóide, comprimindo os três filmes num único ano. O resultado entre os dois primeiros filmes é absolutamente díspar, estando Os Homens Que Odeiam As Mulheres próximo da obra-prima policial e A Rapariga Que Sonhava Com Uma Lata De Gasolina E Um Fósforo mais do dejecto televisivo. Niels Arden Oplev dirigiu o primeiro e Daniel Alfredson os dois últimos tomos. O que nos traz a A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar.

Por sorte, pode dizer-se que Daniel Alfredson aprendeu alguma coisa com os seus erros. Isto é, A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar não é tão mau como A Rapariga Que Sonhava Com Uma Lata De Gasolina E Um Fósforo, desilusão abissal face ao francamente superior trabalho de Niels Oplev. A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar continua a ser um trabalho de grau televisivo, mas é mais coeso e os actores parecem sintonizados. O segundo filme revelava uma total ausência de direcção de actores, ao ponto de considerar-se que muitas cenas medíocres terão sido concluídas num só take.

Finalmente se percebe que, realmente, estamos perante uma trilogia. Os Homens Que Odeiam As Mulheres tinha um argumento estanque, sem brechas, com alguns elementos obscuros em relação ao passado de Lisbeth Salender que eram tornados perceptíveis através de discretas analepses, não sendo necessário esmiuçar mais a ferida. A sequela fez exactamente isso, cavar no passado da personagem e desenterrar um pai cinzeiro e um meio irmão frankensteiniano. Jonas Frykberg encarregou-se dos guiões dos dois últimos volumes.

O filme começa com Lisbeth Salender hospitalizada, a aguardar o julgamento pela tentativa de homicídio do pai, e o meio irmão Niedermann a monte. A maior parte do enredo ciranda em redor da defesa dela, pois um grupo secreto pretende re-interná-la num hospital psiquiátrico, como forma de silenciá-la, em vez de vê-la enfrentar a acusação como pessoa juridicamente capaz. Há algum suspense, nomeadamente quanto à possibilidade de condenação ou as ameaças contra Mikael Blomkvist e os redactores da revista Millenium se concretizarem, mas A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar não lida com um único facto novo. Já sabíamos que Alexander Zalachenko era um ex-KGB exilado na Suécia em troca de informações aos Serviços Secretos, que a púbere Lisbeth Salander tentara transformá-lo em churrasco e fora por isso internada, período em que foi repetidamente violada pelo seu psiquiatra e mais tarde pelo tutor. Sabemos que ela tem, como provas, o seu processo dos anos de internamento e um DVD com o estupro mais recente. Temos tão perfeito conhecimento de todos estes dados que podíamos ser nós os seus advogados de defesa e antecipamos cada movimento do processo, que não tem qualquer surpresa.

As surpresas chegam, sim, com a idiotice de certos passos: se Lisbeth não abriu a boca nos interrogatórios policiais nem nas entrevistas com o psiquiatra, qual a fundamentação do relatório de demência e esquizofrenia? O dever de isenção do tribunal é esquecido quando se permite que o psiquiatra acusado de violação da paciente faça a avaliação desta. A indumentária de Lisbeth no julgamento é inconveniente; ainda que o tribunal não proiba uma total aparência punk, com fato justo de vinil, fivelas, piercings, crista e colar de bicos, não tem cabimento ser tão atentatória. Afinal, as aparências também contam em tribunal e a atitude inconformista não ajuda à sua credibilidade.

No final, mais facilitismos. Quando, no filme anterior, Lisbeth foi acusada de matar três pessoas, tornou-se foragida. Agora, apesar de considerada sã para ser julgada por homicídio qualificado à machadada, o tribunal deixa-a aguardar o julgamento em liberdade? Não pesam o perigo de fuga? E o meio irmão, que passa o filme a passear-se como Michael Myers e a matar pessoas sem motivo? Também por explicar fica a pressa com que Lisbeth quis inspeccionar a propriedade que recebeu do pai em herança.

A Rainha No Palácio Das Correntes De Ar limita-se a atar as pontas soltas e a tornar claro que a personagem principal da trilogia é Lisbeth Salander. O jornalista e parceiro de aventuras Mikael Blomkvist apenas serviu de catalisador. Mediano, consegue manter a receptividade devido a algum ritmo e à familiaridade conquistada pelos personagens.

Luftslottet Som Sprangdes 2009

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