Quarta-feira, Abril 14, 2010

O Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gilliam

O imaginário de Terry Gilliam, responsável pelas animações dos indomáveis reis do nonsense britânico Monty Python e de diversas longas metragens desde o escatológico Jabberwocky (1977), nunca se desvia muito do seu tema de eleição, estabelecer o primado da imaginação como verdadeiro motor da realidade, opondo-se ao caminho insípido e sombrio da ciência e da filosofia. As Aventuras do Barão Munchausen (1988) é, vinte anos depois, ainda o seu expoente máximo, razão pela qual se antecipava a nova colaboração com o argumentista Charles McKeon. O Imaginário do Dr. Parnassus explora a dicotomia entre o prazer através da fantasia ou pelas satisfações mais básicas: dinheiro, sexo e violência.

O enredo de O Imaginário do Dr. Parnassus é uma grande embrulhada. Coloca uma trupe num atrelado puxado a cavalos, de aspecto medieval, a percorrer as ruas da Londres actual, cujo director artístico é um imortal que está prestes a perder a filha devido a uma aposta que fez com o Diabo. Para salvá-la, é encetada nova aposta. A filha será poupada se, até ao dia em que conclui 16 primaveras, a poucos dias de distância, ele conseguir encantar cinco pessoas com o seu mundo de fantasia. O problema é que o velho Dr. Parnassus já perdeu a confiança no poder das suas histórias. Até que um novo personagem surge em cena, com loucura e alegria suficientes para lhe refrescar a esperança.

O Imaginário do Dr. Parnassus apresenta-se como um filme dos amigos de Heath Ledger, com uma óbvia razão de ser. O actor, que ganhou um Oscar póstumo com Dark Knight (2008) e já tinha sido nomeado por Brokeback Mountain (2003), faleceu durante as filmagens de O Imaginário do Dr. Parnassus, a 22 de Janeiro de 2008. Com a produção interrompida e em risco de perder o financiamento (o que já acontecera ao seu anterior projecto, O Homem Que Matou Don Quixote), Terry Gillian lembrou-se de um subterfúgio, que mascarou de homenagem. Como o enredo tinha lugar dentro e fora do mundo dos sonhos, convidou três sex symbols amigos da estrela extinta para o substituírem nas cenas sonhadas. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell foram os escolhidos, sendo Tom Cruise rejeitado por não cumprir o requisito.

Este filme é um grande desafio para o realizador, não só pela razão supra-mencionada, mas também porque, se é o acto de contar histórias que mantém o universo em movimento (como apregoa o protagonista), cabe inquirir se o mundo ainda se interessará pelo entretenimento burlesco (pura commedia del’arte) que propõe. Ninguém lhe nega criatividade, mas tem sido seu apanágio frustrá-la pela falta de contenção. Elefante em loja de porcelanas, Terry Gilliam desorienta-se no seu próprio surrealismo e deixa-se conduzir pelo caminho do excesso, obrigando a Fábrica de Chocolates a fazer horas extraordinárias e a proporcionar um sempre novo Mundo das Maravilhas. Por alguma razão, o pior de O Imaginário do Dr. Parnassus passa-se dentro do Imaginário, máquina dos sonhos que submete Depp, Law e Farrell a situações substancialmente patéticas.

Terry Gilliam é coerente com a sua própria máxima de que o sonho comanda a vida, mas a dificuldade de uma pessoa se recordar dos seus próprios sonhos quando acorda poderá justificar tanta invenção. Nem todos os seus filmes funcionam, porque resultam de uma amálgama de ideias dispersas, remendadas à mão e à pressa, representadas com excessiva abundância de teatralidade e sem uma trama clara e imediatamente compreensível. Os seus filmes só perdem com tamanha falta de objectividade e concisão. Pedia-se-lhe apenas rédea mais curta às suas visões.

Quanto ao elenco, Ledger dá o seu melhor (que até Dark Knight nunca foi muito) e Colin Farrell é o que tem mais dificuldade dos três sósias, mas não é nenhum destes quem se destaca, nem sequer os carismáticos Christopher Plummer e Tom Waits. É Lily Cole quem nos queima a retina, deslumbrante num papel secundário que trata com carinho e sustém ao nível dos restantes e distintos nomes em cartaz. A manequim já tinha entrado em Giras E Passadas (2007), mas é a O Imaginário do Dr. Parnassus que ficará associado o seu desabrochar como actriz. Gilliam é, aliás, um excelente director de actores (bastante permissivo ao contributo destes, mas o primeiro a compensar desequilíbrios), tendo arrancado a Bruce Willis, Brad Pitt (Doze Macacos, 1995) e a Robin Williams (O Rei Pescador, 1991) as suas melhores actuações de sempre.

The Imaginarium of Doctor Parnassus 2009

13 Comments:

Blogger Jackie Brown said...

O que queres dizer com "Ledger dá o seu melhor (que até Dark Knight nunca foi muito)".

E não creio que nem Pitt, nem Williams nem Willis tenham conseguido as suas melhores interpretações com Gilliam.


P.S.- O título em português é "Parnassus- O Homem Que Queria Enganar o Diabo".

4/17/2010 10:15 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Quero dizer que o ledger nunca foi bom actor. no brokeback mountain está um trengo e nem o gilliam foi capaz de fazer alguma coisa dele nos irmãos grimm, onde o matt damon brilha muito acima dele.

esse comentário, sem apresentar alternativas, vale o que vale.

Que título fraco. prefiro o meu.

4/19/2010 8:30 PM  
Blogger Isabel said...

Não creio que Terry Gilliam tenha deixado que um excesso de imaginação se reproduzisse em ideias feitas à pressa. O excesso de imaginação é saudável num filme, desde que se consiga traçar uma linha de lógica para compreender a história e a complexidade das personagens. O facto do teatro ambulante ser puxado por cavalos pelas ruas de uma Londres contemporânea não parecerá tão estranho tendo em conta outros filmes do realizador e as por vezes extravagâncias típicas do seu "imaginarium". Concordo que Jude Law tivesse uma prestação fraquita e concordo que Heath Ledger deu o seu melhor, o que não concordo é quando dizes que ele nunca foi um grande actor. Pode não ter sido perfeito em todos os seus filmes, mas era um bom actor que estava justamente a amadurecer quando morreu. Se fosse vivo estou certa que, dependendo dos argumentos dos filmes que escolhesse, nos brindaria com boas interpretações. O seu Joker foi tão bom que ganhou para si boa parte do mérito de "O Cavaleiro das Trevas" e conseguiu igualar ou mesmo ultrapassar a extravagância do Joker louco que Jack Nicholson tinha sido em filmes anteriores do Batman.
Voltando ao Dr. Parnassus, joga bem com o humor negro, mas falta-lhe algum fôlego para nos fazer rir e torna-se numa reflexão demasiado séria e filosófica sobre as escolhas más da vida (veja-se os efeitos das escolhas que Parnasssus fez toda a sua vida). Mesmo assim não rotularia de "mau" o filme.
Acho que me alonguei demasiado, peço desculpa...
Cumprimentos ;-)

4/20/2010 12:03 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Nunca te desculpes por falares de cinema, podias era ter posto uma linha de espaço entre os parágrafos :)

Podes vir cá sempre que quiseres e fazeres todos os teus testamentos, nem que seja só para me contradizeres.

Vamos lá a ver se te contradigo também...

No plano das medidas, o termo «excesso» foi criado para designar algo que passou da medida, foi demasiado. Ora, até um excesso de imaginação é um defeito, a imaginação deveria estar «no ponto» e não em excesso.

O teatro ambulante faz sentido, «tendo em conta os outros filmes do realizador»? Então, para se compreender um filme, tem de se conhecer a filmografia do realizador? Se um actor fizer de nadador profissional num filme, temos de aceitar que saiba nadar num filme em que fizer de tetraplégico? :P

O Heath Ledger nunca foi bom actor. Para mim, o seu Joker foi uma surpresa. Se ia melhorar? É uma suposição sem o menor suporte. Ninguém diria que o Marlon Brando ia engordar como engordou ou que Clint Eastwood se tornasse mais do que um Charles Bronson e começasse a ganhar Óscares.

Eu não rotulei o filme de mau em nenhum sítio da crítica. Apenas disse que, se não fossem os seus excessos, teria sido bem melhor. Assim, ficou muito confuso e atrapalhado. O final também foi uma parvoíce. A Valentina casou com Anton e tiveram um filho? Quanto tempo se passou entre a libertação dela e a cena seguinte? Se ela não amava Anton, porque haveriam de casar?

4/20/2010 1:33 PM  
Blogger Jackie Brown said...

E o que tens a dizer da interpretação do Ledger em O Cavaleiro das Trevas?

4/20/2010 8:03 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Tenho a dizer o que está na crítica a esse filme.

4/20/2010 8:26 PM  
Blogger Jackie Brown said...

Esperava mais alguma interactividade, já que quase não falas da interpretação de Ledger, apenas de factores a ela externos.
Além disso deixei lá um comentário que nunca teve resposta.

4/20/2010 9:55 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

A interpretação do Ledger no Dark Knight foi excelente. Torci por ele nos óscares. Mas foi uma surpresa, a única representação da carreira dele digna de nota.

O 10 Coisas Que Odeio Em Ti é um dos meus guilty pleasures, mas nem ele nem a Julia Stiles estão acima do que é esperado.

Casanova? Tenham dó, ele não tem nada de Casanova, se não fosse famoso não teria ninguém atrás dele.

4/20/2010 10:51 PM  
Blogger Teenage_Angst said...

Concordo com tudo o que disseste, mas....


será que alguma vez vais gostar realmente de um filme.
Estive a ler o teu blog e até agora ainda não disseste bem de nenhum filme.
porque não segue realização, já que não confias no trabalho dos outros?


abraço

6/25/2010 11:51 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Querida Angst, há que tempos que não visitas :)

Como bom amante de cinema, gosto de ser surpreeendido e maravilhado por filmes bons, mas não aprecio fórmulas batidas nem filmes feitos por maus profissionais, incapazes de controlar os meios à sua disposição, ou cujas histórias não interessam ao menino jesus ou, quando interessam, são conduzidas de forma trôpega e ineficiente.

Quanto ao Terry Gilliam, considero que é um realizador sólido, mas com uma carreira que ondula entre o bom e o questionável. Considero As Aventuras do Barão Munchausen um filme fantástico, onde ele (com o mesmo argumentista de Dr Parnassus) foi capaz de expressar na perfeição a sua paixão pela fantasia como motor de sustentação da vida. Se nunca o viste, dá-lhe uma oportunidade. Em 1987, Gilliam estava no seu auge, depois de Brazil.

Os 12 Macacos é outra das suas obras que adorei. Acho que Bruce Willis e Brad Pitt estão tão bons como nunca tinham estado e a história mantém-nos atentos do início ao fim. A cena em que Bruce Willis chora no táxi, a ouvir um anúncio de cereais da sua infância, é excepcionalmente tocante.

Quanto ao Dr Parnassus... pois que podia estar bem melhor. Continuo a gostar do Gilliam, é um cineasta que respeito, mas não faço vista grossa aos seus erros. Não sou eu quem tem de desculpar-lhos, é ele que tem de aprender a não os fazer.

Gostava bastante de realizar um filme, mas não sou dessa área profissional nem tenho cunha no ICA. Mas criticar e realizar não são necessariamente indissociáveis. Afinal, tu sabes o tipo de música que gostas de ouvir e para isso não és obrigada a seres compositora, sim?

Quanto a este blog, vais encontrar críticas favoráveis onde os filmes merecem. Exemplos recentes: Kick Ass, Como Treinares O Teu Dragão, Eu E Deus, Séraphine. Quanto a Bem-Vindo e a Os Homens Que Odeiam As Mulheres, são dois filmes magníficos, perfeitos no seu género. Podes ler as críticas e ver os filmes. Se me queres ler a dizer bem, não tens como errar.

6/25/2010 7:03 PM  
Blogger Teenage_Angst said...

como disse, concordo contigo, acho que o filme é muito bonito mas tem pouco sentido. Vi mais de metade da sala de cinema sair com um ar de "Ah?!".
Ah e gostei mesmo do (pequeno?) papel Heath Ledger... e Lily Cole não me convence como actriz, mas tenho que dar o braço a torcer porque pelo menos esteticamente encaixa perfeitamente neste papel...

enfim, acho que tens razão em tudo o que disseste... embora continue a achar que é hábito dos críticos de cinema odiarem tudo "só porque sim" e porque dá um ar profissional dizer que não se gosta do filme que toda a gente gosta. (não estou a dizer que é o caso)

(Ah e já agora, adoro a maneira como escreves, é tudo sempre tão explicito sem deixar de ser elaborado.)

6/26/2010 2:18 AM  
Blogger Miss Danny Lovett said...

milagre voce nao ter massacrado o Johnny Depp. Ate que enfim deu um vtempo aos burtonianos!

1/29/2011 4:31 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Eu gosto de Johnny Depp.

1/29/2011 6:07 PM  

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