Domingo, Abril 04, 2010

Je te Mangerais, de Sophie Laloy

Para começar com chavões, Je te Mangerais é uma história de tensão sexual e psicológica em forma de jogo de gato e de rato, em que as posições mudam constantemente de sujeito. História confusa de atracção e repulsa, será eventualmente um filme de intenções, mas definitivamente não o é de resultados. O equilíbrio entre as personagens e os eventos é baralhado e a ambivalência encalha em constantes inversões e mudanças de marcha pouco suaves.

As actrizes, valha-nos isso, foram sabiamente escolhidas, com a virginal Judith Davis e a possessiva Isild Le Besco a evidenciarem as características básicas das suas personagens na mera aparência física e a não terem dificuldade em submergirem nos papeis que tão bem lhes assentam. A relação retratada é lésbica, e é sempre intrigante observar o desabrochar desse interesse púbere, especialmente quando as personagens não sabem lidar com os seus sentimentos.

Com casa a duas horas e meia de comboio do Conservatório de Música de Lyon, Marie arrenda quarto na casa de uma conhecida da família, habitada apenas pela filha desta, Emma, estudante de medicina e sua amiga de infância. Após um beijo inesperado, avoluma-se a tensão entre ambas e o relacionamento, não recíproco, inicia a sua rota de colisão, durante a qual as duas medem forças e trocam constantemente de posição dominante, com a submissão nunca admitida pela outra. Sucedem-se as subtis insinuações e crescentes manifestações de crueldade, desespero e loucura.

Ou Sophie Laloy enfrentou o projecto apenas com uma ideia que não soube desenvolver, ou as suas marionetas ganharam vida própria, recusando-se a obedecer ao guião, que foi sendo adaptado aos seus caprichos. Essa indecisão dá alguns frutos, a início, quando a leitura dos primeiros olhares de Marie parecem indicar que é ela a lésbica das duas, mas depois todas as suas reacções contradizem esse indício. O único contacto entre as duas raparigas é um rápido beijo, logo indesejado por Marie, de modo que Emma parece o filme inteiro nadar contra a maré, numa cegueira doentia que nunca dá frutos positivos. Se alvo de maior organização no campo narrativo, Je te Mangerais poderia ter sido uma viagem diferente, estabelecer graus de envolvimento mais credíveis e uma intensidade que não se escapasse pelas inúmeras brechas. Assim, peca por indefinição e falta de segurança, chegando por vezes ao involuntariamente ridículo, e opta por uma saída fácil.

Je te Mangerais 2009

7 Comments:

Blogger Patrícia said...

Acho que vou ver este por estes dias...

2/11/2012 12:01 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

acho que vais gostar. a protagonista também tem de deixar a cidade natal para ir estudar para longe, por isso vais encontrar afinidades :)

2/11/2012 8:40 AM  
Blogger Patrícia said...

Este comentário foi removido pelo autor.

2/15/2012 12:05 AM  
Blogger Patrícia said...

Este comentário foi removido pelo autor.

2/15/2012 12:09 AM  
Blogger Patrícia said...

Este comentário foi removido pelo autor.

2/15/2012 12:32 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

a emma era realmente a mais bonita das duas, com aquela beleza afectada. a outra era mais trigueira, mais vulgar.
gostei do filme, como te disse acima e se pode inferir pela crítica, mas realmente acho que, lá para o final, não souberam bem digerir os eventos.
mas, sim, é interessante e tem veia poética, como dizes.
concordar é melhor do que discordar.

2/15/2012 11:43 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

há quem goste deste: http://axasteoque.blogspot.com/2008/12/loving-annabelle-de-katherine-brooks.html

2/15/2012 11:48 AM  

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