Whiteout, de Dominic Sena
Aparentemente, nunca tinha ocorrido um homicídio na Antárctica até Greg Rucka se ter lembrado disso e Steve Lieber lhe ter chegado tinta, na homónima graphic novel de 1998. Para que o projecto visse neve verdadeira, foi preciso que os direitos de autor, congelados pela Universal, mudassem de estúdio (para a Dark Castle). Mas tudo o que se vê é neve.
Dominic Sena traz no currículo Kalifornia (1993) e 60 Segundos (2000), mas desde Operação Swordfish (2001) que não pisava um estúdio de cinema. Apesar de confesso fã da graphic novel, não era o homem indicado para a adaptação. As instalações fechadas, cercadas por neve, poderiam ter funcionado como em Alien (1978), sendo a presença carismática de Tom Skerritt paralelismo suficiente, mas esse possível exercício em claustrofobia revelou-se uma história policial simplista e mal adubada. Quatro argumentistas a puxarem o texto cada um para o seu lado fizeram perder o fio condutor. Não só os passos e as conclusões da investigação são tirados da cartola, como surpreendem pela falta de energia.
Todos sabemos que o medo funciona melhor no escuro do que na claridade, mas há alternativas viáveis: Steven Spielberg provou que a superfície lisa do mar pode albergar um assassino de várias toneladas (Jaws, 1975) e John Carpenter já manchara de sangue a neve da Antárctica (Veio do Outro Mundo, 1982). Com a fotografia principal concluída em 2007 e a distribuição do filme só dois anos depois, Whiteout deveria ter usado sal, em vez de gelo, para não perder a frescura. Mas, neste caso, a prateleira foi totalmente merecida. Assiste-se a uma total abstracção de objectivo: a acção é mecânica e a investigação serôdia. Não se sente o suspense nem a neurose da protagonista, desconfiada desde que, durante a sua missão anterior, na solarenga Miami, a traição do parceiro de serviço quase lhe custou a vida. Isto, recorrendo-se ao penoso artifício de flashbacks.
Para aquecer, Kate Beckinsale (já votada a mulher mais sexy de 2009 pela revista Esquire), reduz-se a um striptease de inúmeras camadas de roupa até um conjunto desportivo de cueca e sutiã brancos, antes mesmo da sua primeira deixa. Chegaram a ser feitos castings para uma butt double no frame em que a personagem se dobra, antes de entrar no duche, mas como tudo aponta para um único take e se lhe vê o rosto, a actriz deve ter recuperado do delírio de ter um rabo grande. Essa imagem permanece subliminalmente no nosso coração (será no coração?), para esquecermos que, de resto, se traja para temperaturas abaixo de zero. O público feminino, infelizmente, tem apenas direito a um Alex O’Loughlin (o vampiro da série Moonlight) em baixo de forma, já que Gabriel Macht (The Spirit, 2008) insiste em permanecer aquecido.
O melhor de Whiteout, sem sombra de dúvida, é a excelente banda sonora de John Frizzell, que fez das tripas coração para que a sua partitura imprimisse força ao marasmo branco.
Whiteout é um policial medíocre. Entre os erros de um argumento absurdo, encontram-se os seguintes: os criminosos tinham de fazer diversas deslocações de avião, para cumprirem o seu plano, e conseguem apagar os registos de todas essas viagens sem despertarem suspeitas; a protagonista conclui que a primeira vítima foi atirada de um avião porque não tem equipamento, sem considerar que pura e simplesmente quem o matou podia ter-lhe roubado a mochila; não é razoável que, em plena evacuação das instalações onde todos os personagens habitam, uma aeronave pudesse ser constantemente utilizada sem autorização ou reportada como desaparecida; o agente do FBI surge nas instalações russas sozinho, mas abandona-as com a heroína e o seu piloto, sem pensar no meio de locomoção que utilizou até ali – e estamos a falar de locais ermos, no meio de tempestades de neve; há uma cena desenraizada perto do início onde o médico praxa recém-chegados, quando afinal estão em manobras de evacuação total; o nó dado aos pontos de uma das vítimas é o mesmo que é dado aos dedos da heroína, o que o apontaria como suspeito assim que ela tirasse a ligadura... e foi o que aconteceu; no final, três personagens permanecem nas instalações após a evacuação – o que comem durante seis meses em total reclusão?
Whiteout 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Não discordo de todas essas observações feitas a este "Whiteout". Só dei 5/10... entretém apenas e como tem a Kate distrai ainda mais. É um filme mediano série B que não é para se levar a sério sequer. Não me chateou em nada. Há melhores e piores!
há mais de dez anos que, quando me perguntam quem é a actriz mais bonita de todas, digo sempre Kate Beckinsale. É claro que há outras, e eventualmente mais bonitas, mas a Kate fica sempre presente no meu imaginário enquanto essas vão e vêm.
gosto do Alex O'Laughlin, o vilão, que era um vampiro detective na série Moonlight e agora lidera os bófias do hawaii 5-0. gostei dele até numa comédia com a jennifer lopez em que ela estava grávida e ele namora com ela, de 2010...
mas este filme é muito medidano, sim, e sem a Kate seria penoso. foi o que achei com a prequela do The Thing, que a cara da Mary Winstead não era suficientemente bonita para manter o interesse nela um filme inteiro.
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home