The Merry Gentleman, de Michael Keaton
Michael Keaton senta-se por trás das câmaras e espreita pela objectiva. Aos 57 anos, sabe que a década de 80 já não se vislumbra nem com a melhor lente e quem melhor se recorda dele já não o vê há algum tempo. Nascido Michael Douglas, tentou a comédia stand up e foi cameraman televisivo antes de ser actor. Despachado e fala-barato, passou os anos 70 a preparar-se para o cinema. A oportunidade surgiu com Turno da Noite (1982) e Profissão: Doméstico (1983), antes que Tim Burton o catapultasse para o estrelato, de Os Fantasmas Divertem-se (1988) a Batman (1989). Usou a máscara duas vezes (Batman Regressa, 1992) antes de torcer o nariz ao argumento de Batman Para Sempre (1995). A partir daí, foram mais os papeis de ensemble (Muito Barulho Por Nada, 1993, Primeira Página, 1994) do que de protagonismo (Sem Palavras, 1994 e Os Meus Duplos, A Minha Mulher E Eu, 1996), passando de aparições muito secundárias (Jackie Brown, 1996 e Romance Perigoso, 1998) a outras muito manhosas (Herbie Fully Loaded e Ruídos do Além, 2005), repartindo agora o corpo com a voz (Cars, 2006 e Toy Story 3, 2010). Em 2004, esteve para ser Jack Sheppard na série Perdidos, com a condição do personagem não durar muitos episódios.
The Merry Gentleman não é aquilo que parece. Não se sabe o que terá atraído especificamente Michael Keaton ao argumento de Ron Lazzeretti, mas o que fez com ele é digno de se tirar o chapéu ou, no caso, a boina. Keaton, também à frente das câmaras, é um assassino a soldo que pensa poder ter sido reconhecido no seu último contrato. Kelly MacDonald é uma escocesa de sotaque amoroso que fugiu ao marido abusivo e tenta a sorte numa nova cidade. Bobby Cannavale é o marido abusivo. O resto são situações de diálogos deliciosos e outras que os dispensam completamente, numa lenta construção que permite conhecer os personagens sem que estes se apercebam. O título induz em erro, referindo-se Merry mais ao período natalício do que ao Gentleman, mas o filme escapa a rótulos e só ganha com isso. Projecto intimista conduzido com sensibilidade e discrição, uma surpresa que Michael Keaton deveria ser encorajado a repetir.
The Merry Gentleman 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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