Terça-feira, Março 30, 2010

A Invenção da Mentira, de Ricky Gervais

The Office é uma série da BBC que surpreendeu pela falsa candura com que troçava dos embaraços normais do expediente de um escritório e das humilhações que podem passar-se no seu interior, mas Ricky Gervais, o seu criador, já vinha da comédia stand up, com uma ou outra graça em horas saturantes, e até foi agente da banda Suede. A série Extras foi beber à mesma fonte que The Office, com resultados sofríveis e, no que toca à sétima arte, talvez esta tenha mesmo secado para o primeiro argumentista britânico dos Simpsons (este é um título que Gervais gosta de se atribuir, mas que corresponde apenas a um episódio em 2006). Ao barrete de Ghost Town (2008), segue-se este.

A premissa é simples: num mundo onde toda a gente diz a verdade, Gervais vai dizer a primeira mentira e mostrar a bola de neve em que isso o leva. Mas inquina logo nessa premissa, porque não sabe distinguir a verdade da total idiotice e falta de senso comum. Dizer a verdade pode ser cruel, é um facto, mas é absolutamente impensável que as pessoas não tenham discernimento entre dizerem-na ou estarem caladas, para não ferirem os sentimentos do interlocutor, especialmente quando não foram questionadas nesse sentido. A diferença entre ser sincero e mentir não é ser desbocado e desagradável. Exemplo: a empregada do casino aproxima-se de dois clientes e diz-lhes «Gostava de ser stripper, mas não sou atraente que chegue. Bebidas?» Isto não é o oposto de mentir, é embaraçar-se sem justificação, face a dois estranhos. E situações idênticas reproduzem-se às ninhadas.

É este erro que faz de A Invenção da Mentira um esforço demasiado óbvio, desesperado e ineficiente ao humor. Nem sequer a mera premissa é capaz de cumprir cabalmente. Uma coisa é as pessoas serem incapazes de mentir, outra serem estúpidas a ponto de acreditarem na mais absurda mentira, como «o mundo vai acabar se não fizermos sexo agora mesmo». Ou seja, parece que dizer sempre a verdade evita o uso da lógica ou da racionalidade.

A Invenção da Mentira acaba, deste modo, por afirmar que é a capacidade de mentir que permite ao ser humano o uso da imaginação e da inteligência. Quem diz sempre a verdade é imbecil. O mundo da verdade é um mundo de imbecis. Nessa tónica, ser o único mentiroso desse mundo não torna o protagonista inteligente, mas apenas um imbecil com uma arma que os outros não têm.

Com diálogos aborrecidos no seu mero esforço de serem desagradáveis, os actores tendem a não ser mais do que esboços maçadores, a debitarem deixas como quem faz frete. São como robôs, programados para dizerem a primeira coisa que lhes vem à cabeça. Tina Fey está claramente a mais, Rob Lowe está grisalho e abatido e Jennifer Garner, como acontecera em De Repente Já Nos 30 (2004), confunde o papel de ingénua com o de retardada. Escolher um marido com base na genética dos pais (com o objectivo da procriação) e não no conceito de amor (que parece ausente do mundo da verdade) não tem fiabilidade científica, por isso o mundo da verdade confunde-se com o da ignorância, e faz questionar porque passa o filme inteiro o protagonista a querer juntar-se com uma mulher assim. Pelo corpo dela? E o personagem de Rob Lowe usa óculos, como é que isso é um bom indício genético? Ela não iria querer filhos sem dioptrias?

O argumento de Gervais e do estreante Matthew Robinson é um atentado à inteligência e ao sentido de humor. A Invenção da Mentira é um sofrimento excruciante, que nem deixa de ser requentado quando faz do protagonista uma espécie de Messias. Gervais gozou com a Bíblia de forma mais satisfatória no seu espectáculo ao vivo, Animais (2003).

The Invention of Lying 2009

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