Segunda-feira, Março 15, 2010

Fora de Controlo, de Martin Campbell

Mel Gibson já não representava desde 2002 (Sinais e Éramos Soldados), precisamente o ano em que Martin Campbell manifestou interesse em adaptar para o celulóide a multi-premiada série britânica Edge of Darkness, de 1985. Campbell é o responsável por dar novo fôlego a Zorro (A Máscara do Zorro, 1998) e a dois 007s (Pierce Brosnan e Daniel Craig em 2006), mas não é infalível, caso provado no cansado regresso do ninja mexicano (A Lenda do Zorro, 2005), sete anos depois do primeiro, montado num Antonio Banderas fisicamente pouco aplicado.

Fora de Controlo é produzido por Michael Wearing, realizador e produtor da série original, adaptado pelo dramaturgo australiano Andrew Bovell e revisto por William Monahan, ainda agarrado ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado por Entre Inimigos (2006). Convém recordar, porém, que Entre Inimigos se baseia na trilogia japonesa Infernal Affairs, muito superior à sofrível versão americana, elevada a objecto de interesse só por causa da campanha em redor da impotência de Martin Scorcese sem o reconhecimento da Academia.

Fora de Controlo desmerece a série da BBC que lhe deu origem e deixa claro não ter a menor razão de ser. Ter-se-á Mel Gibson, outrora uma arma mortífera à frente e atrás das câmaras, apercebido à última hora do fiasco que assinara e representa contrariado? O que é certo é que o seu regresso, oito anos depois de Sinais, o encontra cabisbaixo, inexpressivo e em baixo de forma, a expor uns 54 anos muito menos vigorosos do que os de Liam Neeson, que com a mesma idade rodou em 2008 Busca Implacável, dínamo tal que lhe foi oferecido o papel de Hannibal na adaptação da A-Team (2010). E semelhanças há entre os dois papeis, ambos pais vingativos em busca de punição para quem lhes fez mal às crias.

Mel Gibson fere a credibilidade de Fora de Controlo com a parca convicção que imprime ao protagonista, mas o filme já vinha moribundo de raiz, devido à débil construção da intriga e às inúmeras falhas de lógica. Gibson é um polícia de Boston cuja filha é assassinada à sua frente, após ter manifestado sintomas de indisposição que incluíram vómitos e sangramento nasal. É óbvio que a narrativa pretendia manter a causa da morte uma incógnita o máximo de tempo possível, mas é absurdo que a autópsia realizada não encontrasse vestígios de envenenamento por material radiactivo, quando os órgãos internos da vítima já estariam a ressentir-se. Mas o médico legista sai-se apenas com uma incompetente «morte por disparo fatal».

Mas há mais sapos, como o facto do herói, aprisionado numa cave das instalações industriais secretas, debilitado por um envenenamento similar ao da filha, conseguir escapar por artes mágicas; o filme esquece-se, convenientemente, de filmar essa fuga hercúlea, onde o herói deve ter cambaleado por corredores, passado por portas com código, sigo ignorado por câmaras de segurança, arrombado uma viatura e passado pelos portões guardados apenas com o seu sorriso a abrir caminho. E o ridículo de, sabendo-se seguido e a perseguir uma conspiração ao mais alto nível, que elimina brutalmente todas as testemunhas com quem falou, não ver insegurança em examinar uma prova importantíssima (um DVD com a filha a pôr a boca no trombone) num computador portátil, no seu carro estacionado na rua; quão fácil seria aos maus arrancarem-lhe a prova das mãos e destruírem-na?

Fora de Controlo é uma sombra do que poderia ter sido. Mas a própria premissa, de que uma mera estagiária, com baixo nível de segurança, pudesse obter e copiar provas de uma conspiração ao mais alto nível e que o seu homicídio por radiação passasse despercebido numa autópsia são mal explicados, para não falar da banalidade do clímax à americana, com meia dúzia de tiros à queima roupa.

Edge of Darkness 2010

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