A Estrada, de John Hillcoat
John Hillcoat dirigiu um videoclip de Nick Cave (Babe I’m On Fire, 2003) e este propôs-lhe o argumento de Escolha Mortal (2005), numa direcção ao jeito de Jim Jarmush, ao que o realizador não se fez rogado. Cave contribuiu também com a banda sonora e o projecto singrou, muito à custa das prestações de Guy Pearce e Ray Winstone. Entusiasmado, Hillcoat decidiu adaptar o difícil romance de Cormac McCarthy, que tão bem serviu os irmãos Coen com Este País Não É Para Velhos (2007). O livro ganhou o prémio Pulitzer de 2006 e relata o drama de sobrevivência de um pai e de um filho, num mundo pós-apocalíptico, concentrando-se na luta diária por abrigo e alimento. E não ser vítima de canibalismo, aparentemente em voga.
O espectáculo é simples. Se7en (1995) mostrou-o num rápido desfolhar de fotografias, O Maquinista (2004) obrigou Christian Bale a fazer mais do que pose e A Estrada apraz-se com o definhar de Viggo Mortensen. O resto é papel de parede. Morrer à fome ou suicídio parecem ser as únicas questões com que se debatem as pessoas do futuro, já que sobreviver é perpetuar a insegurança e a miséria, após um cataclismo que enegreceu o céu e matou a natureza, incapaz da fotossíntese e do milagre da vida. Só os humanos parecem ter ficado de pé, ou pelo menos a cambalear.
Cyborg (1989), com Jean-Claude Van Damme, dizia-o como deve ser logo à cabeça: Primeiro, o colapso da civilização: anarquia, genocídio, fome. E, para futuros distópicos, sem lei nem esperança, venham mil Mad Maxes em vez desta Estrada onde nada acontece e, quando acontece, parece uma miragem. Acredita-se que o livro seja soturno e deprimente, mas o filme é meramente decepcionante. Pai e filho percorrem estradas desertas, poeirentas e enlameadas para não estarem quietos, mantendo-se ao largo de outros humanos, por desconfiança e auto-preservação, um par sem eira nem beira ou destino à vista. Cruzam-se com situações de miséria idêntica à sua e horrores deslavados pelos cenários cinzentos e pela música entediada de Nick Cave. Diálogos sem substância e olhares esfomeados por parte de Viggo Mortensen, que adiou as suas férias da representação por este papel com poucas linhas, acompanhado de um apático Kodi Smith-McPhee, escolhido somente pelas suas parecenças com Charlize Théron, despachada em breves flashbacks. Neutro até ao fim, Smith-McPhee é incapaz de recriar minimamente a intensidade de Rick Schroeder no momento pós-climático de O Campeão (1979), o que lhe teria valido alguns pontos.
A Estrada estava concluído em finais de 2008, mas decidiu filmar mais algumas cenas e aguardar por Novembro de 2009 para estrear por ocasião das nomeações aos Oscares, mas foi ignorado pela Academia. Estrada da lamentação até ao fim.
The Road 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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