Terça-feira, Fevereiro 16, 2010

Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen

Depois de uma Grã-Bretanha que só o fazia pensar em crimes (Match Point, 2005, Scoop, 2006, e O Sonho de Cassandra, 2007), Woody Allen já se aproximara de Nova Iorque ao chegar-se a Espanha (e aos milhões que a Câmara de Barcelona colocara ao seu dispor para filmar Vicky Cristina Barcelona, 2008), mas não há lugar como o lar, e percebe-se isso logo na primeira cena, quando o protagonista, sentado com amigos na esplanada de café, em Manhattan, se dirige directamente ao público. Isto é um grau de confiança que só se atinge dentro da zona de conforto.

O acto de quebrar a fourth wall é um claro indício de que este projecto não é como os outros. Hilariante pela primeira vez neste milénio, Woody Allen fez o que faz quem perdeu o rumo. Voltou às suas origens, sentou-se à secretária e actualizou um argumento que estava na gaveta desde a morte de Zero Mostel em 1977, actor que ele antevia como o protagonista. Como todos os filmes de Woody Allen até Annie Hall (1977), Tudo Pode Dar Certo é um feixe de gags e one-liners, dignos dos seus tempos de stand-up, dos cartoons da revista New Yorker e dos sketches que escreveu para os programas de televisão Ed Sullivan Show, The Tonight Show e Caesar’s Hour, nos anos 50.

Ao escrever e representar para o programa de apanhados Candid Camera, nos anos 60, Woody Allen criou a persona de intelectual neurótico e nervoso que o acompanhou toda a vida. Com Tudo Pode Dar Certo, sente-se que Woody Allen se sente bem, se não na sua pele, pelo menos no seu cérebro. Sem Zero Mostel e optando por não se reinterpretar pela enésima vez, escolheu Larry David (co-criador das sitcoms Seinfeld e Curb Your Enthusiasm) para fazê-lo por si. Têm em comum a ascendência judaica e ambos terem sido criados em Brooklyn, Nova Iorque (idem para Zero Mostel). David é doze anos mais novo do que Allen (74 anos), mais despachado e não gagueja. Não é bom actor, mas o grau de exigência aqui é mínimo; em vez de alguém que saiba rir e chorar, pede-se apenas convicção, naturalidade e timing.

Tudo Pode Dar Certo não é para ser levado a sério. Assim como a vida. O protagonista disserta fel sobre todos os temas e assuntos que aborda (e poucos deixa de fora), mas o humor corrosivo é o que melhor se adapta à realidade, na sua essência inalterada nas últimas três décadas. Este fresco de Woody Allen mais não é do que um fio de quadros humorísticos, onde os personagens são colados de forma solta e distraidamente soprados de cena para cena, ao ritmo das punchlines. As melhores piadas são, infelizmente, mais espaçadas do que se gostaria, mas as restantes não deixam de levar água ao moinho.

Ao lado de Larry David, é um prazer verificar que Allen finalmente despachou Scarlett Johannson, trocando-a pela muito mais talentosa Evan Rachel Wood. É pena é que lhe tenha dado um papel de menina saloia e burra e a actriz de debata tanto para conseguir esse efeito, claramente abaixo do seu próprio Q.I. A fabulosa Patrícia Clarckson é que faz seu qualquer território que pisa e aqui não é excepção. Curiosamente, Larry David já tinha entrado em dois filmes de Woody Allen, Dias da Rádio e Histórias de Nova Iorque (1987 e 1989).

Whatever Works 2009

2 Comments:

Blogger Tiago Ramos said...

Curiosamente nunca desgostei desta aproximação à Europa pela parte de Woody Allen. Match Point é estrondoso! Mas este regresso a Nova Iorque sabe mesmo bem - é um argumento dos anos 70 e isso nota-se - especialmente com a presença de um alter-ego interpretado por Larry David e pela fantástica Evan Rachel Wood.

2/16/2010 6:29 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

match point é o único filme bom saído dessa aproximação. cassandra's dream empata demais, scoop é mediano e a vicky é uma seca.

2/16/2010 11:15 PM  

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