Sherlock Holmes, de Guy Ritchie
Guy Ritchie, livre de Madonna, estava afinal apenas a aquecer quando apresentou Rockn’Rolla (2008), uma não tão intricada trama de facadas nas costas mafiosas como os seus dois primeiros filmes, Um Mal Nunca Vem Só (1998) e a consagração com Porcos de Diamantes (2000). Ao abrir-nos a porta do fictício 221 B da Baker Street, Ritchie atira-nos para uma Londres excepcionalmente bem caracterizada na sua imundice, com a revolução industrial a servir de fundo a um mistério de contornos aparentemente sobrenaturais, mesmo ao jeito que Sherlock Holmes gosta para afiar o dente, e uma forma de o reunir ao seu fiel Watson e à esquiva femme fatale Irene Adler. Há ainda tempo para as maquinações na sombra de um par de luvas de pelica com uma pistola dentro da manga, que certamente fará uma aparição mais consistente na já anunciada sequela.
Da pena de Sir Arthur Conan Doyle nasceu em 1887 o investigador privado Sherlock Holmes, reconhecido mundialmente pelas suas inacreditáveis capacidades dedutivas, mas que o autor concebeu igualmente como exímio lutador, mestre dos disfarces e interessado por alquimia e outras ciências menores. Sem descuidar de nenhuma destas características, ignoradas pela maior parte das adaptações, o argumento a cinco mãos disponibiliza a Robert Downey Jr as armas necessárias a convencer-nos de que há um cérebro por trás da máscara de ferro.
A típica paleta de cores frias de Guy Ritchie adequar-se-ia ao género em que se circunscreve a obra policial de Conan Doyle, mas o realizador decidiu pisar o risco, anabolizando personagens e acção, numa mal disfarçada tangente ao universo dos comics, actualmente tão familiar ao protagonista. Se dúvidas persistissem quanto à efectividade desta agressiva abordagem face a um público habituado ao clacissismo britânico, a aposta foi ganha sem que se ateassem autos-de-fé ou erguessem outros suplícios.
A essa dinâmica quase circense correspondeu o entusiasmo de Robert Downey Jr, a contagiar até o vulgarmente sorumbático Jude Law e a minorca Rachel McAdams, destemida como a pouco secreta paixão de Holmes (e com a mesma tonalidade de cabelo que Ligações Perigosas, 2009). Kelly Reilly fecha o ramalhete em beleza, como Mary Morstan, ela que foi uma cliente do Holmes literário e rouba o coração de celulóide de Watson, decidido a assentar numa vida de casado que Holmes rejeita, receando que isso o inviabilize como parceiro de mistérios. Os dois provam estar prontos para as curvas e as ruas de Londres não se fizeram rogadas, com sangue e cordite a provar o quão perigosas eram em 1891, com uma Bridge Tower ainda em construção a servir de cenário ao empolgante clímax.
O convite para a banda sonora chegou a Hans Zimmer por duas vias. Os produtores imaginavam o veículo Sherlock Holmes na óptica Batman Begins e Guy Ritchie até já fizera uma montagem provisória com música roubada ao Cavaleiro Negro. Zimmer aceitou a proposta, mas levou-a numa direcção completamente diferente, descrevendo a sua visão como uma mistura de The Pogues com orquestra romena. A composição foi nomeada para os Globos de Ouro (perdeu para Up, de Michael Giacchino) e para os Oscares.
Sherlock Holmes 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
4 Comments:
ah ah finalmente.
Finalmente, não :P
Como te escrevi em comentário ao artigo sobre O Imaginário do Dr. Parnassus, deixaste escapar críticas positivas, entre as quais: Kick Ass, Como Treinares O Teu Dragão, Eu E Deus, Séraphine, Bem-Vindo e Os Homens Que Odeiam As Mulheres.
Mas não são só esses. Adventureland, Nas Nuvens e A Perfect Getaway são outros exemplos. Até a comédia Caçadores de Vampiras Lésbicas teve uma crítica favorável.
De qualquer forma, é preciso ser-se implacável com mau cinema, porque pagar por desilusões é sempre triste.
Eu já fiz as pazes contigo, ok?
:p
Acredito perfeitamente que existam criticas totalmente ou quase totalmente positivas.
Aliás, eu tenho a mania de sair das salas de cinema a adorar todos e quaisquer filmes que tenha visto. Acho que é pelo ecrã ser grande e pelo som ser bom e pelo filme ser novo que tudo me parece fantástico e perfeito.
O que faço quando chego a casa é ver o filme outra vez e vir a sítios como este assentar os pés na terra.
Aconteceu-me isso com Dr. Parnassus... saí do cinema a pensar que era o filme da minha vida. Confuso, mas perfeito. e depois, vi outra vez, li criticas e percebi que o filme tinha imensas falhas e das mais graves...
claro que fizemos as pazes :)
aliás, muito feliz me fazias se continuasses por aqui e comentasses mais textos, até quando as tuas opiniões forem diferentes das minhas. é salutar ter opiniões discordantes, desde que se acredite nelas e se saiba fundamentá-las.
é engraçado porque uns amigos dos meus pais recomendaram-lhes o Dr Parnassus e eles saíram muito desiludidos do cinema.
beijocas
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