Sábado, Fevereiro 27, 2010

Raging Phoenix, de Rashane Limtrakul

Yanin Vismistananda, de alcunha carinhosa Jeeja Yanin, é uma delicada tailandesa de 1,68m e 46kg, descoberta por Prachya Pinkaew (Ong Bak e Honra do Dragão, 2003 e 2005) durante o casting para Born To Fight. Jeeja treinou intensamente, com Panna Ritrikai, durante quatro anos e o resultado foi Chocolate (2008), filme de artes marciais cujo enredo arbitrário abria alas a impressionantes sequências de luta, permitindo assistir ao desabrochar de uma elasticidade quase inumana. Raging Phoenix sucede-lhe, definindo novos padrões de estupidez escrita, mas acanhando-se em proeza física.

Prachya Pinkaew mantém-se encarregue da produção e Panna Ritrikai coordena a acção, mas a jovem promessa Jeeja Yanin parece ter sido descartada. A pobre bem pode ter promovido o filme através de demonstrações públicas de destreza e arrojo, mas Raging Phoenix é um espectáculo deplorável. Weerapon Vongstaphat é um nome a esquecer como coreógrafo e Rashane Limtrakul nunca esteve ligado às artes marciais até 2008, quando Pinkaew o escolheu para dirigir um de quatro segmentos do filme 4 Romances (Fun Waan Aai Joop), onde o protagonista da curta tinha de evitar que roubassem um beijo à namorada, enfrentando o prevaricador. O currículo do realizador tinha apenas uma linha, datada de 1995, pelo que a sua escolha para trás das câmaras é totalmente injustificada. Ser autor da história foi o segundo erro.

Conduzida de forma trôpega e confusa, a fita alia incontáveis inconsistências ao nível narrativo a cenas de acção descaradamente alicerçadas em cabos de suporte, acrobacias mal ensaiadas e pior executadas, próximas de um número de circo com laivos de hip hop. O amadorismo é total e evidente, pronto a figurar na prateleira mais empoeirada de qualquer clube de vídeo de quinta categoria.

A salientar tamanha dose de ridículo involuntário, torna-se imperativa uma possível sinopse: uma organização secreta rapta mulheres que têm um odor específico e quatro namorados inconsoláveis juntam-se para destruí-la, para isso se socorrendo de uma jovem com o tal cheiro, que treinam para o efeito. A arte marcial dos quatro intitula-se de técnica bêbada, o que os obriga a esponjarem para a dominarem e faz deles alcoólicos e idiotas, o mesmo sucedendo à jovem aprendiza, mestra após um curto medley de estágio. A dita organização, quando finalmente descoberta, parece operar através de uma gruta profunda, num lugarejo, não ter computadores nem ser guardada por mais do que dois operativos. O seu desígnio obscuro é destilar e engarrafar as lágrimas das prisioneiras, que vende no submundo como um poderoso ginseng. É tão anedótico que faz questionar porque não contratam, em vez de raptarem, donas de casa, e as põem a assistir a novelas mexicanas. Era todo o santo dia a chorarem e, portanto, a facturarem.

A banda sonora de um entusiasmado Kanisorn Phaungjin é o melhor do filme, quase imprimindo contornos épicos a esta atrapalhada nulidade, interpretada pelo trio de dançarinos B Boys. Atrás vem a presença de Roongtawan Jindasing, a atraente campeã asiática de culturismo, como a derradeira adversária de Jeeja Yanin.

A tradução literal do título tailandês, Deu Suay Doo, é «teimosa, bela e implacável», tudo o que o filme não é. O realismo dos combates de Chocolate foi substituído por macaquices com cabos e o efeito Rocky é levado a extremos: após desmaiar como consequência da exposição à brutalidade da força inimiga, a heroína cambaleante ergue-se como fénix indestrutível e vence em sequência aqueles que, pouco antes, a tinham derrotado repetidamente.

Deu Suay Doo 2009

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