Precious, de Lee Daniels
Precious. Negra, 16 anos, analfabeta, grávida do segundo filho, feia como a noite e gorda como uma orca. A sua fertilidade foi polinizada pelo sémen do próprio pai, a mãe é uma oportunista que vive à custa da Segurança Social e as desgraças não se ficam por aqui. Expulsa do liceu, Precious escapa da sua vida de constante abuso verbal e físico ao ingressar numa escola de ensino alternativo, onde finalmente aprende a ler e a expressar os seus pensamentos na forma escrita.
Básico filme de auto-ajuda que desmotiva mais do que ilumina, Precious baseia-se no romance Push, da galardoada poetisa e activista gay Saphhire. Convencida pela sua agente literária a concluir e publicar um manuscrito esquecido, Sapphire recuperou o que, até hoje, é o seu único trabalho em prosa. Publicado em 1993, o controverso Push narra, na primeira pessoa, o percurso de uma adolescente de Harlem, Nova Iorque, molestada desde a infância pelo pai e rebaixada física e psicologicamente pela mãe inválida, que encontra força de viver através das aulas para alunos especiais e subsequentemente pela poesia, que lhe permite encontrar-se como pessoa e lhe dá segurança para encontrar emprego e ser boa mãe.
Lee Daniels, porém, não era a pessoa indicada para dar asas a esta narrativa. Antes mesmo de sentar-se atrás das câmaras, falha na escolha do elenco. Gabourey Sidibe, como protagonista, veicula apenas duas expressões: enfunada e alegre, e pouco se vê da segunda. A sua personagem no livro é muito tímida e envergonhada, ao contrário da abrutalhada estreante. Mo’nique, no papel de mãe, é ainda pior, porque já tem experiência de representação, nomeadamente no anterior filme do realizador, Shaddowboxer (2005). Vítima de incesto na vida real, a actriz nunca é credível como a mãe abusiva, porventura desconfortável nessa posição, ainda que possa aventurar-se, alternativamente, incompetência pura e simples. Os cantores Mariah Carey e Lenny Kravitz, como assistente social e enfermeiro, respectivamente, só servem para distrair. Paula Patton, de Deja Vu (2006) e Mirrors (2008), é a excepção.
O facto de o drama assentar na relação entre mãe e filha exige uma insistência no desajuste das actrizes que as encarnam, a inviabilizar a credibilidade do ambiente de terror da relação. Ao contrário do livro, a mãe não é inválida, mas apenas preguiçosa e, de pé, perde para o gigantismo da filha, a qual, na cena da emancipação, atira a progenitora contra a parede como se fosse o Incrível Hulk. Mas o cúmulo da inabilidade do realizador avalia-se quando a mãe de Precious tenta matá-la, atirando-lhe uma televisão do segundo andar, e o resultado é involuntariamente anedótico. O que os realistas britânicos da escola de Mike Leigh ou Ken Loach poderiam fazer com esta massa é apenas imaginável.
Contra todas as expectativas, Precious foi um sucesso no Festival de Sundance e tanto os Weinstein como a Lionsgate disputaram a sua distribuição. Ao barulho meteu-se apresentadora televisiva Oprah Winfrey, decidida a promover o filme a todo o custo, e os conhecimentos do seu amigo Tyler Perry na Lionsgate foram decisivos. O filme foi nomeado para seis Óscares, incluindo Melhor Filme, Realizador, Actriz Principal, Secundária e Melhor Argumento Adaptado. Será absurdo se ganhar um único.
Precious: Based On The Novel Push By Saphire 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
29 Comments:
Este comentário foi removido pelo autor.
o filme é mesmo péssimo.
não consigo entender como é que alguém cai tantas vezes(muitas delas de barriga para baixo) e não aborta.É um misterio...
e aqueles sonhos dela enquanto tava desmaiada ou sei la o que, são ridículos...
muita mão da Oprah tem de haver para isto estar nomeado para o que quer que seja.
e sim, a cena da televisão está mesmo ridícula.
a actriz escolhida devia ser muito mais baixa, para que se pudesse acreditar que pudessem espezinhá-la. o puto que se mete com ela e a atira ao chão tem metade do tamanho dela, só uma sapa e ele voava pelo ar...
a mãe parece uma mera bully de rua, falta-lhe todo o ódio e nojo que devia ler-se no seu olhar se fosse boa actriz.
os sonhos são horríveis, eu tinha uma frase sobre isso mas depois não encontrei onde incluí-la e ficou só no esboço.
se não fosse a Oprah ninguém teria visto o filme.
isto poderia dar um excelente filme, mas o elenco tinha de ser todo diferente.
a actriz que faz de precious é péssima, aquilo não é representar, é arrastar-se ao longo do tempo...
a unica representação decente é a da professora, e mesmo assim deixa muito a desejar.
podia ser um filme magnífico, ao nível da Christiane F. não só o elenco, o realizador também teria de ir à vida.
e a porcaria da mariah carey e do lenny kravitz?
arrastar-se é o termo certo.
e a professora ser lésbica também está muito mal amanhado. Então a professora vive com outra mulher, a primeira conclusão é serem lésbicas? Não podiam ser só roomates?
concordo, foram pessimas escolhas...
a mariah carey e o lenny kravitz estão la para tentar dar alguma visibilidade ao filme, mas conseguiram afunda-lo ainda mais.
duas mulheres a viverem juntas, são lésbicas. não se vê logo?
a mãe tambem não podia ter SIDA pk nunca tinha feito sexo anal...
sim, o ridículo dessa afirmação da mãe dela! Aliás, no livro o pai contraiu SIDA por ser drogado, nada teve a ver com homossexualidade.
mas não te esqueças que o filme se passa 87, a mentalidade era essa
mesmo em 87, essa afirmação só seria válida para um homem.
Ou seja, num homem, o sémen infectado só lhe pode entrar pelo rabo, mas numa mulher pode entrar pela vagina e pelo rabo.
não, mesmo nas mulheres o pensamento era esse
portanto, a esperma que entrava pela vagina não fazia mal, só a que entrava pelo ânus?
deves lembrar-te bem da mentalidade das mulheres em 1987, deves. Não te esqueças que eu já tinha 15 anos em 1987, sei muito melhor do que tu o entendimento sobre a SIDA que se tinha na altura.
ha coisas que não é preciso lembrar.
sabes que há uma coisa que se chama estudar, não sabes?
e disso faço eu muito.
os primeiros casos de morte por SIDA datam de 1986. O que se julgava de início é que só era transmissível pelo sexo e entre homossexuais. depois descobriu-se que as mulheres também podiam ser contaminadas e contaminarem e por último chegou a toxicodependência e só se as agulhas fossem partilhadas, porque é o sangue que transmite a doença.
mas nunca se fez a distinção de que a mesma esperma contaminada pela vagina não fazia mal, só pelo ânus. isso é o maior absurdo que já ouvi.
ou seja, em 87 ainda se pensava que era só pelo sexo anal, certo?
o que vem provar a minha teoria de que as mulheres na altura nem sequer consideravam a hipótese de contrair o virus.
tu, quando és tapada, não há quem te abra os olhos.
e pensar que era coisa so de homossexuais não é absurdo?
e ainda hoje se pensar que homossexualidade é doença não é absurdo?
ui, que fiquei com vontade de o ver. (brincando).
a ideia que se tinha é que os homossexuais não tinham sexo com mulheres, por isso o mal estava concentrado nesse grupo.
eia, a primeira participação de sempre da Sra. da Agonia :D
Obrigado e volta quando quiseres. Tenho biscoitos ;)
e tu quando achas que tens razão não ha quem te faça mudar de ideias.
portanto, tu leste que as mulheres em 1987 achavam que podiam ser contagiadas se fizessem sexo anal com um homem com SIDA, mas que estavam safas se esse mesmo potencial homem com SIDA as penetrasse na vagina? achavam que quê, a vagina filtrava a esperma e matava a SIDA?
Então estava encontrada a cura, era fazer vacinas com base em muco vaginal...
o que eu disse foi que a afirmação do filme fazia sentido porque era essa a mentalidade.
eu também acho absurdo. mas anda aí muita coisa que eu acho absurda e com a qual muita gente concorda.
eu ando por aqui a cuscar. sempre
então podias comentar mais. só para eu te sentir a cuscar :)
Precious não é perfeito (a estética da realização é o que mais incomoda), mas é um objecto único e singular, num universo cinematográfico cada vez mais igual entre si. É um trabalho respeitável, mesmo que incomodativo, que dá espaço à reflexão. Mas primeiro e antes que enquanto espectadores possamos reflectir no que vimos, precisamos recuperar do choque e dos constantes murros no estômago.
parece-me que és demasiado facilmente agredido. onde sentiste murros no estômago, eu nem me consegui rir do anedótico. que filme pindérico.
eu li o livro e gostei.
depois do traumatico harry potter tenho fobia a adaptações e por isso não fui ver o filme.
parece que fiz bem.
:p
haha comparares o precious ao harry potter... só se for pelos daydreams que a precious tinha :D
se puderes evitar ver este filme, evita. guarda as boas recordações do livro. a adaptação é péssima, os actores são péssimos, a moral é simplista.
fizeste muito bem.
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