Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

Fama, de Kevin Tanchareon

Fama é uma instituição. Datado de 1980, o filme original era um arrojado estudo sobre a natureza humana, pegando num punhado de adolescentes que queriam explorar as suas capacidades de expressão artística e registando o seu progresso, humano e académico, ao longo de quatro anos de definição de carácter na New York High School of Performing Arts. O argumento dividia-se em segmentos, correspondendo cada um deles a um ano lectivo, das audições à formatura. O seu sucesso (Oscar de Melhor Banda Sonora e Canção Original para Michael Gore) despoletou uma série televisiva com seis temporadas (1982 a 1987), um espectáculo musical de palco e agora um remake.

Quatro actores transitaram do filme para a série e apenas um chega à nova versão: Debbie Allen, outrora a professora de dança, agora Directora da Escola. É a ela que cabe o discurso inicial, uma reconstituição do clássico «Vocês querem fama, mas a fama custa e é aqui que começam a pagá-la, com suor». Desconhecem-se as contas que a produção do remake deixou por pagar, mas assim como à anafada Debbie Allen não resta o menor resquício da elegância da antiga bailarina, nenhum dos envolvidos «vai viver para sempre».

Primeiro do que tudo, falta carisma. Nenhum dos actores e actrizes é verdadeiramente atraente e uma regra deve ter sido criada para que ninguém aparentasse uma altura superior a 1,75m. Há apenas uma voz que se destaca em todo o filme, a de Naturi Naughton. Canta ambas canções interpretadas por Irene Cara no original, Fame e Out Here On My Own e duas originais, porque não contrataram mais vozes capazes. Às meninas amotinadas, conceda-se que a voz de Asher Book é melodiosa, mas num registo limpo e mediano, não desafina, mas não arrisca. Quanto a bailarinos, há apenas Kherington Payne, finalista da quarta temporada do programa So You Think You Can Dance. Do filme inteiro, somam-se somente três curtíssimas coreografias que não fazem sequer subir a adrenalina, sendo inclusivamente montadas de modo a entrecortar a dança com estáticos personagens em diálogo, o que naturalmente lhes esfria o ritmo. O sarau do desfecho é um exemplo do mais completo autismo, com câmaras lentas, holofotes e ainda um coro a distraírem dos movimentos em palco.

O elenco do corpo docente é competente, mas esqueceram-se de alimentá-lo. Bebe Neuwirth, bailarina de jazz premiada (pelo musical Chicago), é a professora de dança; não dança e contam-se pelos dedos as frases que profere, na sua acidez habitual. Charles S. Dutton e Kelsey Grammer (respectivamente os professores de teatro e composição) estão lá pela mera presença e Megan Mullally (professora de canto) canta, para mostrar que tem mais registos do que o quebra-cristais da série Will & Grace.

Quanto à trama, segue o regime do filme original, dividindo-se pelos anos lectivos, mas permanece uma imagem de inércia, sem aproveitamento por parte dos alunos ou ensinamentos por parte dos professores. Quem tirou um curso sabe que quatro anos não passam a correr, cada ano exige muito estudo. Na nova versão de Fama, a Escola das Artes não tem mais importância do que ser campo de pasto, mero trampolim para saídas profissionais que não exigem sequer a conclusão do curso. Não se assiste a um minuto de agonia, apreensão, suores frios, esforço, estudo. Tudo acontece nos tempos livres. Há espaço para tentar acordos discográficos, namorar e dar concertos. Pode até ser mais vantajoso ingressar a meio do curso no mercado de trabalho, se uma companhia de bailado mostrar interesse na contratação. No campo social, é a pocilga da trivialidade, o triunfo dos clichés. O actor que tenta aproveitar-se sexualmente do patinho feio, o produtor que quer desfazer o grupo porque só está interessado na vocalista, a menina rica que gosta do menino pobre, os pais que não reconhecem o talento dos filhos...

O conceito Fama é desrespeitado. A Escola das Artes não passa de cenário para rentabilização. Step Up também se passava numa escola do género e não precisou de roubar o título. Com números de dança tão breves e insípidos, qual a justificação para castings com milhares de candidatos? Um bailado é algo que se quer ver sem cortes de montagem, para que se compreendam os movimentos, para que a coreografia flua do passo A ao B e não apenas ver o passo A e B, implica progressão e não instantes colados. E, definitivamente, o que público de Fama buscava era dança, ritmo, um espectáculo musical hipnótico e motivador, pleno de elasticidade física, harmonia e simetria nos gestos. Dirigido por um coreógrafo, este remake é um fracasso. Personagens de papel numa escola de cartão. High School Musical – A Nova Geração.

O filme original era um drama com música, tinha tudo a ver com os personagens, a sua vontade em singrarem, mas também em conhecerem-se a si próprios, debatendo-se com dramas pessoais como a pobreza, a repressão familiar, a homossexualidade e o aborto. A derivação televisiva prosseguia nesse prisma, mas terminava cada episódio com uma coreografia, e essa era a sua imagem de marca. Assim como o Justiceiro (Knight Rider) premia sempre o turbo booster numa perseguição ou os Soldados da Fortuna (A-Team) saltavam do furgoneta de armas em riste. Mas não se assiste a nada disso no remake de Fama. Para além de que ninguém se desunha a dançar, as cenas de narrativa, vistas individualmente ou em conjunto, não fazem avançar a acção, qual comboio sem paragens. Chumbo garantido.

Fame 2009

5 Comments:

Blogger Jackie Brown said...

Caríssimo, fornces-me o teu contacto de email?
É a respeito de um convite ;)

Cumps.

2/04/2010 11:37 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

ricardolopesmoura@hotmail.com

2/05/2010 1:43 AM  
Blogger Sam said...

o filme é divertido, gostei mais deste do que do primeiro.

2/05/2010 3:19 AM  
Blogger Hugo Andreia said...

Olá (sou a Andreia) Confesso que não li tudo o que queria, que basicamente é...tudo! Olha lá, surpreendeste-me!!! Não estou a comentar sobre este filme (que já vi) porque n tenho muito tempo agora, mas deixo-te uma dica de filme (n recente) que me lembrei e acho que vais gostar (hunor mórbido), BIG NOTHING, acho que n está na tua lista e achei MUITO BOM! Epá, Parabéns!

2/06/2010 11:40 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Andreia, não te tinha respondido ainda porque estava na esperança de que comentasses outros posts, mas como não o fizeste, aqui fica o meu agradecimento por este olá e olha que já tenho mais 14 críticas depois desta.

Como cinturão negro de goju ryu que és, deves apreciar as minhas críticas a filmes de artes marciais, que encontras por aqui a eito, nomeadamente os recentes Ninja e Raging Phoenix, ambos de taekwondo.

beijocas e não sejas estranha :)

2/28/2010 1:03 AM  

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