Pumping Iron, de George Butler e Robert Fiore
Por incumbência da revista Life, o fotógrafo George Butler cobriu a competição Mr. Universe de 1972, a decorrer no Iraque. Foi aí que se interessou pelo ainda obscuro desporto da musculação de alto nível, ao qual deu visibilidade num livro de fotografia, que publicaria dois anos depois com Charles Gaines, intitulado Pumping Iron: A Arte e o Desporto do Culturismo. O sucesso das ilustrações motivá-lo-iam a dar seguimento ao conceito num filme, uma espécie de documentário sobre essa marginalizada mas impressionante sub-cultura da maximização muscular.
Após mais de 100 horas de gravações, o processo de montagem obrigou a alguma estruturação, e assim construiu-se uma trama de antagonismo entre Arnold Schwarzenegger e Lou Ferrigno. Schwarzenegger, então com 28 anos, era o campeão absoluto. Tinha ganho uma vez o concurso Mr. Universo, para amadores, e o Mr. Olympia, para profissionais, cinco anos seguidos. Ferrigno contava apenas 24 primaveras e tinha dois títulos de Mr. Universo. Concorrendo pela primeira vez no Mr. Olympia, iria defrontar a Ameaça Austríaca em Pretória, África do Sul, em 1975. A juntar ao ramalhete estava ainda Frank Columbu, amigo de Arnold e a competir pela quinta vez pela mesma posição.
O filme começa com uma abordagem simples ao fenómeno do culturismo, no ginásio Gold’s Gym, em Laguna Beach, Califórnia, e daí desloca-se numa progressão piramidal, centrando-se em dois candidatos ao concurso Mr. World, uma antecâmara para o Mr. Universo. Coloca em litígio Mike Katz, homem de família, e Ken Waller, que eventualmente ganharia o título, ficando Katz em quarto lugar, sem sequer pisar o pódio. Este é um ponto de grande inteligência na construção narrativa de Pumping Iron. Ao dar proeminência a concorrentes perdedores, deixa tudo em aberto para o grande final.
Recheado de treinos, poses e entrevistas, Pumping Iron gravita então em redor de Schwarzenegger e Ferrigno. O objectivo inicial era o de fazer do primeiro o herói e do segundo o vilão, com Ferrigno a ser o monstro que vinha arrancar-lhe o título, mas rapidamente se viu que esse prisma não iria funcionar e Arnold assumiu o papel. O seu carisma, contudo, permitiu-lhe ser encarado como herói, mesmo que cínico e convencido. Na verdade, os comportamentos mais chocantes dele não passavam de pose. Confessou que não tinha ido ao funeral do pai porque tinha de concentrar-se nos treinos e que ficava tão focalizado que não se distraía nem que estivessem a roubar-lhe o carro. Refutou essas afirmações como caracterização, no documentário Raw Iron, de 2002 (para o DVD do 25º aniversário de Pumping Iron), e que sempre considerou o filme um docudrama e não um documentário.
Finalmente, em Pretória, o concurso. O júri pontua simetria, proporção e tamanho/definição de cada grupo muscular. Há duas categorias em competição, abaixo e acima dos 91kg. Os campeões de ambas categorias defrontam-se no final, sendo eleito o vencedor absoluto. Columbu vence a primeira e Schwarzenegger a segunda. Ferrigno fica em terceiro lugar na categoria de mais de 91kg, atrás do francês Serge Nubret. Schwarzenegger ganha o troféu máximo.
Na conferência de imprensa, o campeão anuncia publicamente que vai retirar-se das competições de bodybuilding. Sabemos o que se segue. Conan, Terminator, Comando, Predador, O Último Grande Herói. Em 1980, Schwarzenegger volta a competir no Mr. Olympia e a assegurar o seu 7º título. Frank Columbo viria a sagrar-se campeão em 1976 e 1981. Lou Ferrigno não voltaria a competir, seguindo uma carreira televisiva e cinematográfica que mais o notabilizou pelo papel de Hulk, ideal para alguém com sérios problemas auditivos e de articulação verbal desde a infância.
Pumping Iron 1977
O Evangelho Segundo Cinéfilo
11 Comments:
Caro axasteoquê?!?,
Os Óscares de Marketing Cinematográfico, iniciativa que pretende nomear o melhor que se fez em publicidade de Cinema no ano de 2009, estão de regresso ao Keyzer Soze’s Place.
Assim, convido o autor deste blog a expressar a sua opinião em http://sozekeyser.blogspot.com/2010/01/oscares-de-marketing-cinematografico-2.html.
Desde já, apresento o meu profundo agradecimento na sua disponibilidade para participar nesta iniciativa.
Cumprimentos cinéfilos!
eu gostei bastante.
é interessante comparar o que se fazia na altura e o que se faz agora.
faltou falar do lado negro de tudo isto, mas no contexto também não fazia grande sentido.
qual lado negro?
que aquilo é impossivel de atingir só com treino. falar de tudo o que eles tomam para ficar daquele tamanho, etc...
já viste a minha crítica seguinte? é ao documentário raw iron, de 2002. aí, o arnold confessa ter tomado esteróides.
mas lembra-te que o filme foi filmado em 1975 e os esteróides não eram ilegais.
http://axasteoque.blogspot.com/2010/01/raw-iron-de-dave-e-scott-mcveigh.html
sim, já li a critica.
eu sei que não eram, ele faz parecer que aquilo é tudo treino quando está muito longe disso.
quem já teve oportunidade de seguir os treinos de um culturista de perto sabe disso, como é o caso...
por isso é que nos anos 80 eu preferia o corpo do stallone. Aquilo era só esforço físico. era espantosamente definido, mas em termos de massa muscular, muito menor que o arnaldo.
por vezes menos é mais.
o stallone treinou para ter o corpo do rocky III com o franco columbu, o levantador de carros do pumping iron :)
o franco dava ca um jeitão nos estacionamentos:P
no raw iron ele explica que a equipa de filmagem foi com ele até à sardenha e que não havia nada de interessante para filmar, pelo que ele se lembrou de impressionar os velhotes da família com essa demonstração de força.
o arnaldo esticou-se quando disse que ele era como uma criança. no raw iron o franco diz que não levou a mal, que o arnaldo estava só a brincar.
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