Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Órfã, de Jaume Collet-Serra

Não há muito território por percorrer no que toca a crianças malévolas. A contrariar a imagem romântica da criança como símbolo da inocência, deriva do Antigo Testamento (Reis 2:23-25) que as crianças também trazem a maldade dentro de si, e nos últimos dois mil anos o material foi já esgotado pela literatura e pelo cinema. É nesse sentido que Órfã não traz nada de novo.

O autor William March, no ano da sua morte (1954), publicou A Semente Maligna, um romance sobre uma criança assassina de oito anos de idade, que dois anos depois contava já com uma adaptação teatral e cinematográfica (The Bad Seed, 1956) e um remake (1985). A Aldeia dos Malditos (1960) multiplicou as maldades e Damien, o Anti-Cristo de The Omen (1976 e remake em 2006), singularizou-se no território onde, desde os anos 80, Stephen King montou a toalha de piquenique nos campos de milho de Children of The Corn (fenómeno que despoletou seis sequelas, de 1986 a 2001). Se esquecermos que o Anti-Cristo de Rosemary’s Baby (1968) já era mau no ventre da mãe, foi Stephen King quem deu rosto ao mais jovem assassino do celulóide, o Gabe de três anos de idade de Cemitério Vivo (1989).

Dos pequenos gatunos de Oliver Twist e de Pinóquio até ao Stewie da série Family Guy (quantas vezes tentou esse diabo matar Lois?), a passar inevitavelmente pelo Pimentinha e por Matilda, são tantas as crianças psicopatas do celulóide que Esther, de Órfã, não arranca mais do que um bocejo, especialmente se a compararmos com a terrível Sadako/Samara, de The Ring (versão japonesa de 1998 e americana de 2002).

Órfã é um pobre thriller não fantasmagórico sobre uma menina que se revela bem menos angelical do que vinha na brochura. A família que a adopta devia ter mais juízo, mas os pais nestes filmes são tão estúpidos como os argumentistas encostados contra a parede da falta de imaginação. Com dois filhos pequenos, um nado morto, a recuperação de alcoolismo por parte da mãe e a memória de uma infidelidade por parte do pai, John e Kate decidem adoptar uma menina que, naturalmente, já vem com as suas próprias manias, ou não estivesse ela praticamente na puberdade. Rapidamente, os sorrisos de Esther transformam-se em esgares e as maldades têm início, mas John e Kate divergem quanto à autoria das mesmas, apesar das evidências. Esse atrito é só o início de um rol de fragilidades que culmina em facadas, tiros e uma desilusão que vem desde a cena de abertura (literalmente, que pesadelo surrealista mal elaborado).

Quanto à desconfiança por parte de Kate, cabe mencionar tristemente que nunca chega a haver a menor aproximação entre ela e Esther, o que faz questionar toda a decisão de adoptar. Mas, enfim, adiante, porque as inconsistências não se ficam por aqui. Primeiro, o desleixo face à natural psicologia infantil: quando ela pergunta aos filhos se se dão bem com Esther e eles acenam, seria impossível não reparar que estão apavorados. Não se percebe a razão pela qual guardam segredo sobre as acções criminosas da recém chegada. Essa atitude só é de esperar quando as crianças têm medo que não se acredite nelas, e no filme sabem que a mãe quer forçosamente provas de que a órfã não é quem diz ser. E também não se compreende a negligência grosseira de Kate, que acha que Esther quer mal aos seus filhos, mas simultaneamente deixa-os à solta com ela, em vez de ter sobre eles uma vigilância constante.

Órfã soma clichés que apresenta orgulhosamente como novidades, tornando-se autista e cansativo. O realizador (Casa de Cera, 2005), pelo seu lado, a nadar num lodo de mau argumento, opta por exaustos e estagnados efeitos visuais a gritarem lobo. E toda a gente sabe que, quando o lobo finalmente ataca Pedro, já ninguém se rala. No final, à custa de uma deficiência pituitária, o twist aproxima-o de O Padrasto (1987 e com remake em 2009), onde um homem procurava a família perfeita, disposto a eliminar as candidatas quando estas não se mostravam à altura do objectivo.

Vera Farmiga e Peter Sarsgaard não estão apenas débeis no plano da representação, mas também exauridos fisicamente, pois de outra forma não se entende como, na cena climática, são incapazes de controlar uma franzina menina de nove anos. Aryanna Engineer, a actriz mais credível do filme (no papel de Max e não de Esther), é realmente surda e sabe linguagem gestual.

Orphan 2009

26 Comments:

Blogger Sam said...

como é obvio eu não vou ver isto, mas ao ler a tua critica assustei-me com a quantidade de putos maus qua andam no cinema.
eu vi o The Omen e o The ring:)

12/07/2009 7:24 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

mesmo que gostasses de filmes de terror, este é uma porcaria.

12/07/2009 7:46 PM  
Blogger Sam said...

pois, já percebi.
eu não gostei dele logo na apresentação.
é hoje que vejo a ultima casa à esquerda:)

12/07/2009 7:48 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

esse é muito bom. se descobrires porque é que tem esse título, avisa-me :)

12/07/2009 7:50 PM  
Blogger Sam said...

lol, eu li a tua critica. vou tentar descobrir, ainda estou na fase de ganhar coragem para o ver:S

12/07/2009 7:54 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

não é um slasher cheio de sangue e cabeças pelo ar, tipo sexta-feira 13, é mais um filme de tensão, que se preocupa mais em provocar apreensão com o que vai acontecer no ecrã do que em assustar-te. não é filme onde apareça um gato de repente, só para dares um salto.

acho que vais gostar, eu gostei muito.

12/07/2009 8:00 PM  
Blogger Sam said...

ja me deixaste mais descansada:)
eu vou ver por tua causa, já te digo como correu.

12/07/2009 8:12 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

faço figas :)

12/07/2009 8:20 PM  
Blogger Sam said...

[Daqui o 2º Sam que costuma "povoar" a tua caixa de comentários :)]

Quanto ao filme, infelizmente, tinha mesmo de terminar em 'slasher', são as regras da indústria. Mas gostei da menina-revelação de ORFÃ, Isabelle Fuhrman. Se tal surpresa deve-se a um mero "instinto infantil" ou a verdadeiro talento, só o tempo o dirá; uma coisa é certa — aquela imagem de menina má vai demorar a passar...

Abraço.

12/07/2009 8:22 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Olá, Samuel.
Olha que eu gostei muito mais da menina surda do que da órfã, tanto mais que até nem mencionei a protagonista no texto. achei o trabalho desta muito normal, ora simpática, ora com ar de má. eficiente, mas nada digno de nota. a aryanna tinha um medo muito verdadeiro.
dos adultos, não gostei de nenhum. o casal estava cansado e frio e a freira era uma lorpa, que nunca desconfiou de nada.

agora, as maldades... só gostei quando ela empurrou a max para baixo do carro da freira, porque realmente não estava à espera. de resto, foi tudo muita coincidência e negligência da mãe: então acha que a esther podia fazer mal aos filhos e deixa-a sozinha com eles? depois de saber que ela pegou fogo à casa da árvore, deixa o filho sem protecção no hospital? não mantém sempre o olho na órfã?

o pai era um palerma. e a cena em que ele aparece com a psiquiatra lá em casa para fazer pressão à mulher?

e onde é que a esther arranjou tinta que só se vê com luz negra?

nas plotkey words do IMDb, encontrei uma muita gira: «rear entry sex». Onde é que há sexo anal no filme? é daquela vez na cozinha, em que são apanhados pela miúda? Como é que o IMDb sabe que foi anal? LOL

12/07/2009 8:36 PM  
Blogger Sam said...

olha, aqui a sam já sabe porque é a ultima casa à esquerda.
aquilo é a ultima casa à esquerda antes do lago:P

12/07/2009 8:42 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

como é que pode ser a última casa à esquerda do que quer que seja quando o pai diz que não há nenhuma casa em redor por 6kms?

uma casa a 6km das outras é uma casa isolada :D

12/07/2009 8:49 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

além disso, quando eles metem o carro para a estrada de terra que tem a tabuleta the lake ends in the road, desde aí até à casa deles não se vê mais nenhuma...

12/07/2009 8:51 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

aliás, nem é 6km, é 6 miles, por isso são uns bons 9km.

12/07/2009 8:52 PM  
Blogger Sam said...

quando aparece a tabuleta eles viram precisamente à esquerda, logo, é a ultima casa à esquerda:P

12/07/2009 8:56 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

se andares 9km sem veres uma casa, como é que sabes que aquela é a última? onde se começa a contar?

além disso, quando metem à esquerda nessa tabuleta, continuam a conduzir durante um bom pedaço, ninguém vê a casa dali.

12/07/2009 9:08 PM  
Blogger Sam said...

obrigado, arrasaste a minha teoria:(

12/07/2009 9:10 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

achas que era assim, logo à primeira, teres uma teoria certa onde eu só vi caos? :P

12/07/2009 9:11 PM  
Blogger Sam said...

devia ser, pk eu até gosto de ti e tu devias ser simpatico e dar-me razão.

12/07/2009 9:12 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

isso seria condescendência e não te estaria a fazer nenhum favor, acredita.

12/07/2009 9:15 PM  
Blogger Sam said...

olha que até estavas porque eu gosto de achar que tenho razão.

12/07/2009 9:16 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

eu acho que vais gostar mais de ver o filme sem interrupções. falo contigo dentro de hora e meia :P

12/07/2009 9:17 PM  
Blogger Sam said...

já vi:)
é giro, é um terror light.

12/07/2009 10:36 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

falamos lá?

http://axasteoque.blogspot.com/2009/09/ultima-casa-esquerda-de-dennis-lliadis.html

12/07/2009 11:38 PM  
Blogger Sam said...

Antes de mais, ainda não vi LAST HOUSE ON THE LEFT. Mas, pela amena cavaqueira que aqui se regista, a sua visualização está agendada para um futuro próximo.

Quanto a ORFÃ, concordo contigo: o argumento tem imensos buracos e falhas de lógica que, infelizmente, são um hábito neste género de filmes.

Abraço.

12/08/2009 1:29 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Samuel,

Quando o vires, podes ir espreitar os comentários que estão no artigo sobre esse filme e hoje podes ler a minha insightful crítica. e espreitar também a minha crítica ao filme original, a péssima estreia de wes craven.

O que mais me chateia em filmes como o Órfã sãs as falhas de lógica interna. Se tratassem delas de modo a que fizessem sentido, engolia-se melhor.

a cena do hospital, então é crónica. a mãe tem a certeza da culpa da esther, mas ainda assim a deixa sozinha. se ela tentou incendiar a casa da árvore com o chavalo dentro, o que é que lhe custava tentar meter-lhe uma almofada na cara? só negligências por parte dela.

e alguém no IMDB comentou que o tabefe que a Kate deu à esther lhe devia ter deixado uma nódoa negra e nada e que os enfermeiros agarraram a Kate e a injectaram com um calmante qualquer. Mas o hospital não tem seguranças? injecta-se assim logo uma pessoa estranha, que até pode ser alérgica ao produto injectado?

Tantas pontas soltas ...

A Última Casa À Esquerda, de 2009, pelo contrário, não tem nenhuma ponta solta. A não ser o final, mas como a história em si já estava terminada, OK, aceita-se o floreado pela piada.

12/08/2009 1:47 AM  

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