Crank 2: Alta Voltagem, de Mark Neveldine e Brian Taylor
Jason Staham veio devagarinho à superfície, pela mão de um Guy Ritchie que dava igualmente os primeiros passos na 7ª Arte (Um Mal Nunca Vem Só, 1998), e foi lentamente criando um nicho para o seu sotaque cerrado e rosto cinzelado, acabando por estabelecer-se como um fiável e atípico herói de acção, à custa do corpo atlético e de uma agilidade acima da média, demonstrados a contento nas aventuras do Correio de Risco (2002, 2005 e 2008). Mas Statham, carteirista de profissão nas ruas de Londres antes de receber o primeiro cheque honesto, é um actor decidido a agarrar oportunidades e disposto a arriscar, surpreendendo até com revelações sobre a própria impotência (London, 2005).
Crank 2: Alta Voltagem sucede a Crank: Veneno no Sangue (2006), e consiste basicamente num novo nível do mesmo videojogo. Chev Chelios, no primeiro filme, foi injectado com uma droga que lhe parará o coração ao fim de uma hora, se não encontrar o antídoto. A única solução para chegar ao fim do dia e aos detentores do antídoto são constantes induções de adrenalina, seja através da violência ou do sexo, enquanto percorre a cidade de Los Angeles em busca da sobrevivência. O filme termina com Chev a cair de um helicóptero, à altura dos andares cimeiros dos arranha-céus circundantes. Fim da linha? Não se esta puder ser dobrada.
Chev Chelios sobreviveu à queda, mas apenas para ser dador de órgãos à força. Recuperando da anestesia com uma provisória bomba de ar em vez do coração que lhe foi removido, cedo descobre que, se quer viver o suficiente para recuperar o coração roubado, terá de abastecer continuamente o substituto movido a bateria eléctrica.
Exercício inconsequente de acção imparável, Crank 2 não passa de um frenesi orgásmico da velha ultra-violência, nas eternas palavras do Alex da Laranja Mecânica (1971). A olho, são misturados na batedeira tiroteios, parkour, muita correria e inúmeras mulheres nuas. As liberdades visuais de Robert Rodriguez em Desperado (1995) empalidecem em comparação, sendo, aliás, difícil encontrar paralelo à histeria gráfica da dupla Neveldine e Taylor, que não parece seguir o menor critério. Só é imperdoável ter Jason Statham e não haver lutas de artes marciais, desperdiçando-se aliás o momento adequado, entre torres de alta tensão, para se concentrar numa envergonhada homenagem a Godzila.
Crank 2 não é, decididamente, um filme para todos os gostos. Praticamente sem história nem desenvolvimento ao nível dos personagens, limita-se a seguir em fastforward a devastação criada por um bruto em busca do seu coração, sem deixar pedra sobre pedra onde quer que vá. Humor nonsense de sarjeta e sem fazer prisioneiros, prego a fundo até se ver o extremo pelo espelho retrovisor, quer seja a cortar o cotovelo a uma vítima ou a arrancar os mamilos como penitência a um membro de gang, é o desastre completo e mais além.
Fisicamente, Jason Statham está mais definido do que em 2006, tornando-o mais credível como máquina indestrutível, mas convém precisar que o seu papel não é nada fácil e que ele se revela um actor capaz de incríveis nuances, com uma estaleca interpretativa muito acima da de Stallone, Schwarzenegger ou do que o percursor de todos os homens de aço, Charles Bronson.
Para além de Amy Smart e de Dwight Yoakam, que já vinham do antecessor, é curioso notar as presenças fugazes de actores-surpresa como David Carradine, Corey Haim e Michael Weston. Este último um rosto conhecido das temporadas 5 e 6 do famoso Dr. House, entrou no anterior filme da dupla Neveldine e Taylor, Patologia (2008), sobre uma equipa de patologistas que matavam de noite para poderem autopsiar de manhã.
O que nos traz, definitivamente, ao cerne do cinema desta dupla: chocar a plateia com cenas gratuitas, com maior ou menor tacto, num tentacular jogo experimentalista ao nível criativo, sempre a ver o que funciona melhor do ponto de vista voyeurista. Até à data, a sua técnica de pastiche só resultou em fantasias adolescentes irrealistas, que ficam aquém do ponto de vista narrativo, não satisfazendo enquanto história, mas apenas como esboço de algo, por vezes prometedor, a que falta complitude. Gamer (2009), o filme da dupla concluído na peugada de Crank 2, sofre dos mesmos defeitos.
Crank 2 High Voltage 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
6 Comments:
Este filme é completamente louco, é isso que o torna tão bom. É uma cena atrás de outra cheia de adrenalina e de cenas caricatas, desde o hipódromo à cena final.
É um cocktail de violência muito bem conseguido, falta-lhe história é certo, mas a acção é muito bem conduzida.
bem, eu até acho que a coisa funciona em si mesma, como videojogo pleno de adrenalina, mas perto do fim comecei a pensar na roupa que tinha para lavar. é que deixar o cérebro de pousio só é possível até certo ponto.
é que ver um demo de um videojogo não é o mesmo que jogá-lo. a fase final, em casa do drug dealer, foi mais farsola e não percebi o fuck you que o herói faz ao público no final.
o gamer é filmado de maneira parecida. eu não gostei, mas tu se calhar podes experimentar, talvez gostes mais.
sim, a cena final não tem grande lógica. alias todo o filme deixa muito a desejar como história mas vale a pena por ser tão desgarrado.
eu já vi o gamer e não gostei.
então viste o gamer e não dizias nada? :P
passou-me, se eu tivesse gostado tu já sabias:P
hummmm conversinha de comadres agora?
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