Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Atormentados, de Mike Barker

De Mike Barker, apenas se retém na memória um pequeno tratado sobre o suspense e a manipulação (Best Laid Plans, 1999), onde as reviravoltas e as analepses ajudavam a compor um quadro que apanhava o público desprevenido. Mas, desde então, a carreira de Barker foi rasteira, com dois dramas de época a causar estranheza e bocejo (Matar O Rei e Uma Boa Mulher, respectivamente de 2003 e 2004). Atormentados é um regresso ao campo do suspense, o único onde deixou uma nota positiva, e de onde provavelmente não deveria ter saído.

Apesar de parecer arrastar-se em diversas cenas redundantes, Atormentados cumpre a sua função de forma bem oleada. Um misterioso desconhecido surge armado no banco de trás do jipe do casal protagonista e ameaça-os com a morte da filha de ambos, entretanto raptada, se não for prontamente obedecido. O que se segue é um conjunto de provações que se prolonga por 24 horas e parece directamente prejudicial à carreira do cabeça-de-casal. O que começa como um resgate rapidamente inclui contornos menos claros.

Há momentos em que o twist final se intui fugazmente, mas outros comprometem esse raciocínio e mantêm a dúvida. As peças encaixam-se de forma solta e o raptor-marionetista não parece, a espaços, ter um plano definido, devido à composição menos feliz de Pierce Brosnan, que até com um demasiado esforçado sotaque irlandês irrita, a contrastar à força com o discreto escocês de Gerard Butler, muito mais consistente como vítima. Brosnan tem-se desdobrado em diferentes papeis desde que o MI-6 o despediu em 2002, mas a degeneração física não tem compensado em talento. Gerard Butler esforça-se por mostrar que é mais do que um espartano e Maria Bello vai fazendo contas à vida durante o trajecto, não sobre o destino da filha mas sobre se teria coragem para interpretar o papel deixado vago por Rachel Weisz em A Múmia 3 (2008).

O título original Butterfly On A Wheel já tinha sido usado em 1915 por Maurice Tourneur (que realizou seis filmes nesse ano), mas o argumento de William Morrissey não estabelece com ele nenhuma relação. O título é retirado ao verso de Alexander Pope (how to break a butterfly upon a wheel, de 1735), normalmente interpretado como esforçar-se demasiado por atingir um resultado visto como insignificante. Apesar de toda a tensão e do twist final satisfatório, o título prova-se um bom aviso.

Butterfly On A Wheel 2007

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