Os Purificadores, de Richard Jobson
Num futuro idiota, as cidades vão ser protegidas por uma infra-estrutura de gangs. Não parece haver forças policiais nem Governo Central, apenas grupos de artistas marciais, distribuídos por zonas de controlo demarcadas e distinguíveis pelos seus uniformes. Os testes de força entre eles, a manter o equilíbrio entre si, não são batalhas campais mas combates amigáveis, organizados em dojos. Um desses chefes locais convoca os restantes para sugerir a reunião de todos sob uma única liderança. Um dos gangs, conhecido como Os Purificadores, rejeita a proposta e é perseguido durante o remanescente do filme.
A segunda longa metragem de Richard Jobson é uma anedota. Plagia o clássico The Warriors (1979), de Walter Hill, mas não se preocupa com tensão, drama ou construção de personagens. Para filme de artes marciais, limita-se a algumas rápidas e discretas danças distribuídas pela película, articuladas pelo coreógrafo Gordon Alexander, que também protagoniza. Este e Kevin McKidd comportam-se convenientemente (o primeiro discreto e o segundo efusivo), ao contrário do restante elenco, que apenas corre desenfreadamente ou faz poses preocupadas, conforme a indicação vinda de detrás das câmaras.
Com duplos a fazerem de actores e actores a fazerem de lutadores, nem uns nem outros cumprem neste lamaçal de superfícies lisas e futuristas (filmado integralmente no Museu de Ciência de Glasgow e seus jardins). Dominic Moynahan (um dos hobbits da trilogia Senhor dos Anéis e da série Perdidos) está no filme errado, já que a sua única imitação de luta é vergonhosa, com uma linguagem corporal a denunciar os golpes muito antes de os concretizar. Rachel Grant (uma filipina que já foi body double de Angelina Jolie em Lara Croft: Tomb Raider e massagista em 007: Morre Noutro Dia) nem chega a lutar, o que faz questionar a sua presença no gang e no filme. Chloe Bruce tem duas curtas aparições, sem direito a uma única frase, o que neste caso deve congratular-se; apesar de se ter entregue à dança em anos mais recentes, na sua adolescência Chloe foi campeã de formas de tang soo do, uma variante de tae kwon do, inclusivamente tendo representado a sua rotina no vídeoclip Rewind (1999), do teclista Cylob. A elasticidade de Chloe Bruce é tão surpreendente como a de Jean-Claude Van Damme nos primórdios, mas o talento desta nova Cynthia Rothrock ainda não teve o destaque que merece. Chloe é detentora do Recorde do Guinness de maior número de pontapés num minuto: em 2008 garantiu o recorde com 192 pontapés mawashi geri e em assegurou-o com 210 (contra Mila Valevich, que só somou 190).
Vocalista e liricista dos Skids (banda britânica de art-punk do final dos anos 70), leitor de poesia para a editora Disques du Crepuscule, apresentador da BBC1, Sky e VH-1, Richard Jobson escreveu e realizou três filmes entre 2003 e 2005. Os Purificadores é o filme do meio, filmado em vídeo e editado em Mac. Kevin McKidd, actor que avançaria para papeis em séries como Roma, Journeyman, e Anatomia de Grey, protagonizou o primeiro filme de Jobson, 16 Years of Alcohol (baseado no livro escrito pelo realizador). Os Purificadores, porém, não tem um único mérito. A história é simplista, o trabalho dos actores uma vaga mancha e os combates ocasionais pecam por uma estética excessivamente marcada pelo recurso à câmara lenta. Fica a sensação de que o realizador conseguiu transformar 20 minutos de filmagens em 85, graças a esse estratagema. O director de fotografia, John Rhodes, ainda fez o que pôde para garantir um aspecto arthouse, mas nada poderia salvar esta fita da nulidade.
The Purifiers 2004
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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