Terça-feira, Outubro 27, 2009

Os Informadores, de Gregor Jordan

Moral da história, é tão complicado ser rico na L.A. glam de 1983, a alimentar vícios para completar o vazio, ter tudo e não saber dar valor a nada. Filme estéril sobre sombras que se passeiam num cenário acetinado sem terem ideia do que é viver, sentir ou emocionarem-se. O filme não tem personagens, apenas figurantes, e chamar às suas deambulações de interligação de narrativas é uma anedota que faria rir Robert Altman, cineasta que conjugou os contos do grande Raymond Carver ao ponto de melhorá-los (Short Cuts, 1993).

Inepto e entediante, Os Informadores revela-se incapaz de passar a mais vaga mensagem. Brett Easton Ellis, autor do argumento, especializou-se em personagens superficiais, nomeadamente em Less Than Zero (1987) e American Psycho (2000), mas aqui nem arranha a superfície. Less Than Zero, pelo menos, tinha actores à altura, com os icónicos Andrew McCarthy, James Spader (os dois tinham actuado juntos no êxito Pretty In Pink, do ano transacto, e havia química entre eles), Robert Downey Jr. e Jamie Gertz, enquanto que American Psycho contava com um ultra-musculado Christian Bale. Em vez dos temas da amizade ou obsessão dos filmes mencionados, Os Informadores fica pelo etéreo disparate da pura irrelevância.

Valha-lhe isso, o realizador Gregor Jordan não tenta enganar ninguém: logo à abertura se prenuncia o pior. Temos as roupas à Miami Vice, os olhares vítreos em rostos plásticos e um acidente de automóvel tão mal filmado que seria melhor tê-lo feito à portuguesa, só por sonoplastia. E, lá mais para o fim, tenta mostrar-se profundo por limitar-se a sugerir de que determinada figurante padece: promíscua, com manchas no corpo, cansaço e frio; sim, deve ser o síndrome da imuno-deficiência adquirida, para também não ser demasiado claro.

A única curiosidade vai para a tentativa de dar resposta à questão deixada pelo título do filme All The Boys Love Mandy Lane (Sedução Mortal, 2006). A actriz Amber Heard perdeu peso e finalmente se sentiu confiante o suficiente para concretizar o que ficou desfocado em Alpha Dog (2006). Despe-se a contento, ainda que o seu rosto seja mais atraente em Hidden Palms (2007) e Never Back Down (2008), com bochechas redondinhas. Com uma carreira em ascensão, fica uma nova dúvida: porque terá aceite um papel tão inconsistente, a não pedir mais do que topless durante metade da actuação? A presença de Brad Renfro (O Cliente, Sleepers, Ghost World e Bully) não é uma miragem. O actor morreu aos 25 anos, em Janeiro de 2008 (de overdose de cocaína), uma semana antes de Heath Ledger, o que faz deste o seu último trabalho. Apesar de Heath ter sido relembrado no espaço In Memoriam dos Óscares desse ano, dedicado às estrelas que se apagam, Renfro foi ignorado (uns dizem que foi devido à causa de morte, outros por não ser membro da Academia). Num filme onde entram Chris Isaak, Kim Basinger e Winona Ryder, Billy Bob Thornton consegue ser o mais horrendo miscast, completamente desadequado para o papel atribuído.

The Informers 2009

3 Comments:

Blogger Sam said...

Caro Ricardo,

és o 1º blogger a partilhar a minha opinião de que este OS INFORMADORES é um filme (muito) abaixo da média. Ainda fiquei pior quando soube que o próprio Bret Easton Ellis rubricou o argumento...

Cumps. cinéfilos.

11/06/2009 4:56 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Curiosamente, meu caro Sam, és o segundo Sam que me comenta, e o outro é uma Sam :)

Pois, este filme é demasiado mau para ser verdade... ter o nome de Ellis nada significa; qual não é o meu espanto quando reparo que o filme Rudo & Cursi tem produção de três grandes nomes do cinema sul americano: Guillermo del Toro, Alejandro González Iñárritu e Alfonso Cuáron e é horrível (upcoming review)!!!

11/06/2009 11:58 PM  
Blogger Sam said...

Também já li sobre o mau calibre de RUDO & CURSI... Fico a aguardar a review!

Cumps.

11/08/2009 2:19 PM  

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