Sábado, Outubro 24, 2009

Distrito 9, de Neill Blomkamp

Em 2005, o desconhecido Neill Blomkamp apresentou uma curta metragem de seis minutos, Alive in Joburg, sobre uma nave espacial que estacionara sobre Joanesburgo e o difícil relacionamento entre humanos e aliens. Seis minutos valem o que valem, mas Peter Jackson, empolgado com a segunda vida que dava a King Kong, decidiu oferecer ao novato a direcção da adaptação do jogo de computador Halo. Tal projecto caiu por terra, mas Jackson, inamovível em ser o ganha-pão do jovem, atirou 30 milhões de dólares pela janela, investindo-os no projecto seguinte de Blomkamp, antes deste saber qual era. O resultado foi Distrito 9 que, à falta de melhor, desenvolveu a ideia nascida em Alive in Joburg.
Há algumas alterações ao conceito original. Todas para pior. Em seis minutos de curta metragem, percebeu-se que os aliens tinham tecnologia e sabiam usá-la em proveito próprio, estando inclusivamente a drenar nutrientes do próprio planeta, através de enormes tubagens ligadas entre a nave e o solo sul-africano. Os aliens surgem vestidos (facilitou imenso em termos visuais, só ter de arranjar máscaras), capazes de comunicar com os humanos e entre si. Em Distrito 9, passaram a indigentes e a serem incapazes de manifestar inteligência. Opções que não fazem muito sentido, mesmo que se tente dizer que eram trabalhadores manuais. Numa nave mãe do tamanho daquela da série V (1983-1984 e a regressar em 2010), da Enterprise ou da Galactica, mesmo que a carga fosse escrava, teria de haver quem a transportasse, controlasse e comercializasse, i.é, uma tripulação. Não é crível que uma nave interestelar viaje, digamos, em piloto automático através de sistemas solares.
Distrito 9 não é um Dia da Independência (1996) sul-africano. A reacção aos primeiros minutos iria no sentido do comentário social e a abordagem poderia ter sido, senão louvável, pelo menos curiosa. Montado como uma reportagem jornalística (o formato de Alive in Joburg), relata que uma nave sobrevoou Joanesburgo há 20 anos atrás e que os tripulantes, sem forma de regressarem ao planeta natal, vivem desde então num bairro de lata (Bairro nº9) e são ostracizados pela população humana. Uma óbvia piscadela de olho ao regime esclavagista do Apartheid? Os aliens são os novos pretos? Depois o filme liga a batedeira e dispersa-se.
A partir da abertura, são tantos os passos em falso que se torna lamentável. Sem terem mais do que uma ideia do que pretendiam, os argumentistas apresentam os extraterrestres como animais, a fazerem distúrbios e sem qualquer capacidade social ou intelectual. Não houve a menor aproximação entre as espécies ou um desenvolvimento sustentado por parte dos aliens (fala-se em 2,5 milhões de criaturas)? Para além dos movimentos anti-alien, não seria de crer que em 20 anos surgissem igualmente movimentos a favor deles? Quem era suposto usar as armas sofisticadas de que a nave parecia estar cheia? Os aliens são explorados por gangs de nigerianos que vivem nas mesmas palhotas que eles e lhes vendem comida de gato em lata, uma suposta iguaria que não se percebe com o que pagam. Têm força para atirar um humano à distância de vários metros e uma carapaça resistente, mas um soco deixa-os de joelhos. Um borrifo de gasolina extraterrestre altera o DNA humano e a mão ferida da vítima, em poucas horas, fica tentacular como a dos aliens, mas dias mais tarde o resto do seu corpo permanece humano (e o borrifo foi no rosto, não na mão).
A meio, uma inversão de atitude, a piscar o olho a Danças Com Lobos (1990). Os aliens não têm maldade, são como crianças com déficit de aprendizagem e os maus são os humanos, que os rejeitam. E, como vem sendo hábito desde a famosa autópsia de Roswell, são objecto de experiências científicas para fins de aproveitamento militar. Essa reviravolta ainda é reforçada pelo facto de não haver um único humano que possa ser visto como modelo. Até aquele que eventualmente ajuda o único alien inteligente fá-lo por razões de sobrevivência pessoal e não por altruísmo.
Com uma qualidade muito superior, Alien Nation (1988), de Graham Baker, já tocava no tema da coexistência de humanos com aliens, também ela uma força laboral pobre. Os temas esclavagismo, exploração, prostituição inter-racial e crime já lá estavam. Havia também a questão da integração. Mas o aspecto físico é importante. Em Alien Nation, os aliens tinham aspecto e tez caucasianos, o que ajudava. Em District 9 a composição lembra mais A Mosca (1986) de David Cronenberg, dificultando conceber que pudessem dedicar-se à canalização, mecânica automóvel ou trabalho doméstico. Há também um pouco de Starship Troopers (1997), de Paul Verhoeven, derivado, não só do aspecto crustáceo dos bichos, mas também das experiências científicas conduzidas neles.
Sharlto Copley é o único actor que fica na retina. É o anti-herói de serviço e comporta-se à altura de um papel exigente, o idiota que salva o dia depois de uma data de azares consecutivos. Não será bem o Ash do Evil Dead, mas a loucura também lhe atinge a mão. Sem experiência anterior, Copley tinha duas frases em Alive in Joburg. Um golpe de sorte para ele e para o cinéfilo.
A mesma empresa que recriou O Senhor Dos Aneis e King Kong (Weta Digital) é responsável pelos efeitos visuais de District 9, mas não fez um trabalho de eleição. No que respeita à nave que paira sobre a cidade, é muito desfocada, retirando-lhe a imponência que deveria ter, e as figuras humanóides são desconjuntadas e pouco empáticas. A excepção surge com o mech, um fato-mecânizado que cruza ED209 (RoboCop, 1987) com APU (Matrix Revolutions, 2003), assemelhando-se a um autêntico robô artilhado.
Enfim, District 9 desilude de mil e uma maneiras, por ser possível apontar falhas de lógica em praticamente todas as reviravoltas. Até a fuga numa cápsula, que é arrancada do ar por um míssil e parece irreparável, afinal só precisa que um alien entre dentro dela para que volte a funcionar (então e a perda da asa, não precisa de ser reparada?). O mesmo se passa com a nave-mãe. Meio litro de combustível líquido, parcialmente gasto na cápsula individual, é o suficiente para pôr em marcha um veículo de quilómetros de diâmetro e toneladas de peso? No fundo, foi feita uma aposta em alguém com apenas seis minutos de vídeo mediano no currículo, que teve a sorte de impressionar um investidor megalómano (Peter Jackson). Talvez este se tenha revisto no entusiasmo de Blomkamp, o qual veio a verificar-se demasiado verde para tão elevados voos sem supervisão.
District 9 2009

3 Comments:

Blogger Tiago Ramos said...

Está longe de ser um filme perfeito, mas considero-o uma das surpresas de 2009, pela consistência. E apesar de não ser de todo original, apresenta uma lufada de ar fresco ao sci-fi.

10/25/2009 12:46 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

está longe de ser um bom filme. depois de lhe ter apontado dois parágrafos cheios de erros, qual é a consistência que o filme tem?

aliás, consistência deve ser o que o filme menos tem ...

10/25/2009 1:53 AM  
Blogger rui.molina said...

...pode ter seus defeitos....mas indubitavelmente é um filme sci fiction diferente...apesar de uns poucos cliches.....

12/21/2009 12:24 PM  

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