Sinais do Futuro, de Alex Proyas
Da mesma maneira que, relativamente a Poltergeist, se diz que Steven Spielberg, creditado como produtor, foi de facto o realizador e que Tobe Hooper, creditado como realizador, não o foi, também parece existirem dois Alex Proyas. Um, talentoso, foi responsável pelo fulminante O Corvo (1994) e pelo surpreendente Dark City (1998). Bebida a poção, o Dr. Jeckyll deu ligar a Mr. Hyde e o nome de Proyas surge associado à mediocridade de Eu, Robot (2004) e de Sinais do Futuro (2009).
Tomados que estavam os títulos Apocalipse e Armagedão, Proyas aceitou o mais barato à disposição, pensando para com os seus botões que «para o que é, bacalhau basta». E não se enganou. A trama, aparentemente, também estava em saldo. Há 50 anos, uma escola primária decidiu fazer uma brincadeira: colocar num tubo de aço, a que chamou de cápsula do tempo, desenhos dos alunos do primeiro ano. Apesar do planeamento que terá levado à construção do tubo e à gravação da tampa no asfalto, à entrada da escola, por baixo da qual será sepultado o tubo, os alunos tiveram tão pouco tempo para fazer os respectivos desenhos que uma professora impaciente arranca das mãos o trabalho de uma aluna, que está a demorar demasiado tempo a garatujar números numa folha de papel. De qualquer modo, para que estará a miúda, que veste do mesmo roupeiro que Wednesday Adams, a perder tempo com tais gatafunhos, se eles vão ficar longe da vista durante os 50 anos seguintes? É uma boa pergunta, já que um desiludido e viúvo professor de Física do MIT vai descobrir que, por causa desse hiato, tem apenas 72 horas para salvar o mundo ou vê-lo arder.
No ano em que Keanu Reeves volta à Terra para acabar com ela (O Dia Em Que A Terra Parou), mas muda de ideias no final, o sol decide não ser tão misericordioso. A tempo chega um pequeno grupo de extraterrestres que se veste como figurantes do Matrix (1999) e larga pedrinhas pretas por onde passa (na minha óptica, são as fezes deles), mas cujo objectivo não é salvar a humanidade em peso, mas apenas dois espécimes, ainda crianças, que naturalmente um dia se verão na obrigação de copularem, se querem multiplicar a raça humana, entretanto radicada num planeta distante. Serão exemplos de racismo os extraterrestres disfarçarem-se de homens brancos, as duas crianças sobreviventes serem brancas e os animais de estimação que levam consigo serem dois coelhos brancos? E as fezes dos extraterrestres, a confirmar-se serem fezes, terem a cor preta?
Será a verdadeira Escola da Física a do Determinismo ou a do Caos? Os eventos ocorrem por um motivo ou ao calhas? Mais importante do que isso, porque é que Nicolas Cage ainda não percebeu que, se deixar crescer as patilhas, vai ficar menos nítida a sensação de que usa peruca?
Quanto à pergunta sobre a verdadeira Escola da Física, a resposta é irrelevante porque, independentemente de as coisas acontecerem porque têm de acontecer ou por acidente, nada pode ser mudado. O conhecimento não é uma arma, é um fardo. As respostas de Sinais do Futuro e a condução da trama são anedóticas, salvando-se apenas uma queda de avião bastante realista e um acidente automóvel chocante.
Knowing 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Bem, pelo menos o Mundo acabou mesmo! xD
sim, acabaram-se os desaires do alex proyas. é por isso que não se pode dizer que alguém vai ser muito bom por causa dos seus primeiros trabalhos.
o corvo é fabuloso e o dark city também é impressionante no seu rebuscado e na sua imagética negra. gostei mais da versão do realizador, mas a comercial também funciona.
não gostaste do meu raciocínio sobre as pedras pretas?
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home