Hoop Dreams, de Steve James
No filme Bad Boys (1994), Wll Smith encesta casualmente uma bola de basquete no ginásio da esquadra de polícia de Los Angeles e afirma que «Toda a gente quer ser como o Mike», referência a Mike Jordan (ao slogan Be Like Mike do anúncio da Gatorade de 1992), um dos melhores jogadores de sempre da NBA. No mesmo ano, chega Hoop Dreams, um documentário que segue durante quatro anos dois promissores adolescentes afro-americanos de Chicago cujo sonho é chegarem a basquetebolistas profissionais. É um filme sobre a luta, as desilusões e as esperanças de duas famílias e dos sacrifícios que tiveram de fazer para que os filhos pudessem perseguir os seus sonhos, terminarem o liceu e chegarem à Universidade com uma bolsa de desporto.
Hoop Dreams devora a miséria desses jovens e das suas famílias sem desarmar, percorrendo as decisões, desilusões e cansaços dos dois aspirantes, naqueles que foram os seus anos formadores. Querer não é poder quando o gosto pelo jogo passa a ser visto «como uma profissão», quando problemas familiares e financeiros ensombram a esperança e a luz ao fundo do túnel se mostra mais distante a cada lesão ou nota que não ajuda.
Os dois protagonistas, William Gates e Arthur Agee, foram escolhidos pelos seus antecedentes de pobreza. Moravam em bairros sociais problemáticos (Cabrini Green Projects) e tiveram de lidar com o ambiente de desemprego, drogas e crime das suas redondezas. Conseguiram singrar? Esse é o mais esmagador peso do filme, um grito que apenas pede a visibilidade para um grave problema social. Com praticamente 3 horas de duração, filmadas em betamax, o filme diz muito sobre o efeito big brother num documentário. A manipulação dos factos é real, por parte dos realizadores, que os controlam conforme os interesses da peça. Inicialmente, os dois jovens são apresentados de modo a supor-se qual vai singrar e qual vai falhar, mas depois os papeis invertem-se e a humilhação infligida pelas câmaras não é ligeira. A toxicodependência do pai de Arthur só é aflorada quando convém, parecendo ele anteriormente um pai modelo. Também a namorada de William é apresentada como uma surpresa, numa ocasião em que o filho de ambos já tem vários meses.
O filme termina numa fase ainda indistinta das vidas dos jovens, mas adivinha-se já que nenhum chegará ao estrelato. Apenas um sonho para miúdos sem esperança, quais as alternativas de futuro se o cesto da NBA não se concretizar? Nem eles, nem os pais, nem os treinadores, nem os olheiros parecem ter uma resposta.
Nesse ano, a revista Entertainment Weekly decidiu investigar porque razão Hoop Dreams foi candidato ao Oscar de Melhor Montagem mas não ao de Melhor Documentário e as suas descobertas acabaram por obrigar a Academia a mudar as regras do jogo. Para além de a maior parte dos votantes para esta categoria não serem documentaristas, aparentemente houve uma enorme pressão de bastidores para que o vencedor do Melhor Documentário do Festival de Sundance nunca fosse nomeado.
Hoop Dreams 1994
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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