Exterminador Implacável: A Salvação, de McG
Antes de mais, cabe deixar claro o toque de Midas de James cameron, visionário e destemido. Para quem quiser criticar Piranha 2, a sua primeira longa metragem, é obséquio recordar que o produtor fez uma montagem à revelia de Cameron e que o resultado final nada teve a ver com os seus desígnios. Mas Exterminador Implacável, Aliens, Abismo, A Verdade da Mentira e Titanic não têm mácula. Em 1985, ajudou Sylvester Stallone com o argumento de Rambo II e dez anos depois a esposa Katherine Bigelow, em Strange Days.
Sobre as bases da saga Terminator, nada ficou por dizer que ainda não se saiba. No futuro, a Inteligência Artificial decidiu o extermínio da raça humana. Do ano 2029, chegaram a 1984 um cyborg com a missão de matar a mãe do líder dos rebeldes (antes do nascimento deste) e um rebelde para salvá-la. A revelação: se o rebelde não tivesse vindo ao passado, o líder da resistência não teria nascido. Em 1992, as máquinas tentam novo atentado, com um modelo mais avançado de exterminador. A revelação: sem o chip do cyborg de 1984, a tecnologia não teria avançado o suficiente para criar máquinas capazes de virarem-se contra os humanos.
James Cameron não regressou para a terceira toma, invocando não ter o que acrescentar à história. Jonathan Mostow, que ascendeu à realização, também não. A narrativa esgotara as suas inversões cronológicas e até a entrada de Schwarzenegger foi similar à de T2, preparando o espectador para a falta de originalidade que se seguiria. Enredo igualmente linear se verifica em Exterminador Implacável: A Salvação, quarto filme que se apresenta como o primeiro de uma segunda trilogia, a passar-se integralmente no futuro.
McG é o homem por trás das duas aventuras cinematográficas dos Anjos de Charlie (2000 e 2003), autênticos videoclips de girl power (e de um mortiço Universidade Marshall, de 2006), razão pela qual se esperaria que trouxesse para a frente uma figura feminina à altura. Linda Hamilton mais do que enchia as medidas nos dois primeiros filmes e o terceiro contava com uma Terminatrix cheia de garra. Por Bryce Dallas Howard não se dava nada (teve de ser salva por Paul Giamatti em A Senhora do Lago e por Tobey Maguire em Homem Aranha 3), mas Moon Bloodgood podia ter feito bem melhor, ela que até se dedicava a viagens no tempo na série televisiva Journeyman, de 2007, e revivia o mesmo dia vezes sem conta em Day Break, 2006-7) T4 desperdiça os seus talentos, como os desperdiçou Street Fighter: A Lenda de Chun Li (2009). Sendo suposto ser uma guerreira destemida, quase não dá provas disso.
Quanto à história, as rescritas foram tantas que deixou de haver responsáveis. Quando Christian Bale assinou pela nova trilogia, a sua preferência por interpretar John Connor passou-o a protagonista, obrigando ao reequilibrar dos pratos da balança e ao preenchimento da vaga de Marcus Wright, um híbrido que vem provar que as máquinas também podem ter coração (literalmente), por Sam Worthington, granjeando-lhe o papel mais bem esgalhado de entre todas as personagens planas do filme.
Infelizmente, nem Marcus escapa à crítica. O híbrido surge do nada, dá logo com o incógnito Kyle Reese e em menos de nada está na presença do seu alvo principal, John Connor. É demasiado conveniente. Ainda o supus um terminator vindo de um futuro mais longínquo, programado para proteger Reese, mas a inventividade não corria nas penas encarregues do argumento. Marcus nunca chega a convencer como humano, pelo que era escusado o esforço na incredulidade da ferramenta à mostra: o filme começa com ele a ser executado em 2003, após doar o corpo à Cyberdine, empresa que sabemos responsável pela criação dos terminators, e seria uma característica pouco humana não envelhecer em 15 anos.
Quanto a Kyle Reese, entrega o nome demasiado depressa, como se fosse necessário um letreiro. Afinal, o prévio diálogo entre John Connor e a esposa já o haviam referenciado como um adolescente perdido nos escombros. Teria sido mais astucioso deixar o público intuir a sua identidade. Anton Yelchin foi uma escolha tão má como Nick Stahl em T3. Há papeis que exigem um actor com ar afoito e não de mariquinhas. E por falar na esposa de Connor, o que terá possuído o casting a escolher Bryce Dallas Howard para o papel? Claire Danes (com a personagem em T3) tem a mesma idade de Nick Stahl, enquanto que a diferença entre Christian Bale e Bryce é de sete anos. E nota-se.
Os diálogos são enigmaticamente truncados, assemelhando-se a meros excertos, como se o seu significado tivesse ficado retido no filtro e o copo mais não contivesse do que palavras soltas («Porquê?», «Porque sim», «OK», quando Connor questiona Blair depois de esta ter ajudado Marcus a fugir). O discurso de Connor ao Comando, em que invoca que da salvação de Reese depende o sucesso da guerra contra as máquinas e a própria Humanidade, é falso, porque Reese não tem a menor utilidade; a sua missão já se cumpriu: afinal, Connor existe.
Terminator (1984), é um thriller de tirar o fôlego. Os seus flashforwards (agora até há uma série com este título) apresentavam um futuro pós-apocalíptico, onde as máquinas eram incansáveis no extermínio dos humanos, não dando descanso aos estropiados sobreviventes. Em T4, nunca se chega a ter essa sensação do verdadeiro perigo. Apesar do extenso poder de fogo e de uma sensibilidade que lhes permite ouvir um auto-rádio a longas distâncias, as máquinas atacam em proporções irrisórias. Para evitarem a fuga de Marcus, os rebeldes recorrem a um autêntico fogo de artifício, com isso assinalando a localização do seu esconderijo, mas não atraem mais do que um cardume de cobras mecânicas (os polvos de Matrix eram mais impressionantes). Connor infiltra-se no quartel-general da Skynet e depara-se com centenas de prisioneiros, mas apenas meia dúzia de obsoletos robôs a guardá-los. E quando tropeça no meio de uma linha de montagem de terminators, em vez de serem activadas as centenas de unidades fabricadas, apenas uma vem no seu encalço. George Lucas nunca foi tão forreta na contratação de figurantes. E o que dizer dessa luta, que se queria espectacular porque a ocorrer durante o clímax? Em vez de exibir originalidade, recria os momentos cruciais do ataque do T-1000 em T2, recorrendo ao calor e ao frio para o transformar em estátua.
Como num filme de James Bond, em que o vilão confia ao agente de Sua Magestade o plano maligno por trás de todas as suas maquinações, o cérebro da Skynet faz o mesmo a T-Marcus, para que se faça luz ao público das teias que teceu e ainda tece (era uma vez um submarino). Mas é absurdo que o faça verbalmente, visto que o mega-computador e T-Marcus acabaram de sincronizar-se. Não significaria isto que toda a informação tivesse passado de forma automática? E como se convenceu Connor de que T-Marcus seria capaz de, sozinho, desligar as defesas da Skynet? Afinal, ele nem tinha consciência de ser máquina, quanto mais recordar-se de alguma vez ter estado dentro do quartel-general.
Exterminador Implacável: Salvação é uma desilusão. É-o por todas as falhas já apresentadas e ainda porque Christian Bale não se esforça como actor. Até a cicatriz que lhe é infligida pela mão do T-800 é em forma de Y, o que não faz o menor sentido. O que se salva, de todo este aparatoso desastre? É de louvar, num tempo em que o design futurista governa a ficção científica, verem-se robôs descarnados, com aspecto de zombies, a mostrar um mundo tipo Mad Max onde a funcionalidade é tudo, porque as máquinas não têm vaidade; a presença inesperada de um T-800 muito parecido com Arnold Schawarzenegger em 1992 (corpo de Roland Kickinger e rosto de CGI); as motos exterminadoras; e voltar a ouvir as frases imortais I’ll be Back (agora por John Connor) e Come with me if you wanna live (uma vez mais por Kyle Reese). De resto, para um filme de acção, é demasiado parado e entediante. Nem sequer abre a porta à menor racionalização sobre, por exemplo, o que faz de alguém um ser humano, quando até um cyborg é capaz de actos abnegados como sacrificar-se pelo protagonista do filme, sem o qual não haveria sequela. O que, pela presente amostra, até nem seria um mau futuro.
Terminator Salvation 2009
O Evangelho Segundo Cinéfilo
14 Comments:
bem, eu acho que vi o 1 e o 2.
Sem duvida gostei mais do 2, este ainda tenho de ver...
foi realmente uma desilusão...
e sempre não é mesmo o Scharzenegger que aparece no filme, certo?
cumprimentos
Sam:
o 1 e o 2 são os melhores. o 2 tem melhores efeitos especiais e duplos mais bem pagos, mas convém não esquecer que o 1 não é só um filme de acção futurista, é um thriller de suspense e uma boa dose de terror tipo john carpenter.
o 3 é muito mau e o 4º é mau. a melhor cena do filme passa-se antes do intervalo. por acaso, a melhor cena do 2 também é antes do intervalo.
Jackie:
A resposta à tua pergunta está no último parágrafo.
sabes que Jackie Brown é nome feminino, certo?
Muito obrigado.
E sim, sei.
Infelizmente, quando adoptei este nome ainda nao me tinha apercebido..
Mas também nao e grave, certo? ;)
Ja agora, parabens pelo blog, e convido te a passares pelo meu.
Cumps
Jackie,
achavas que este arnold (http://www.mcblogger.com/archives/images/Arnold%20S%20SummerSkin.jpg) podia parecer este (http://3.bp.blogspot.com/_C58_4QQm_rk/SrkXdF_vIII/AAAAAAAAITs/xVBZknfHDh8/s320/PHwI2DwDL8wOAx_l.jpg)?
porque é que adoptaste esse nome? fizeste-o antes de veres o filme ou leres o livro? é que a jackie é a protagonista dos dois ... mais depressa te safavas sendo um cão danado ...
Obrigado. Já te dei uma espreitadela, depois te deixarei alguns comentários.
Não realmente, pareceu-me um CGI, mas a dúvida persiste sempre, ate porque ouvi falar dum cameo do Arny e tambem porque acho ridiculo fazerem o rosto a CGI.
E já nao me lembro das circunstancias em que adoptei o nome. Apenas me pareceu(e parece) um bonito e até estiloso nome, apesar de feminino. Claro que se soubesse nao teria(provavelmente) adoptado...
Jackie,
não sei se és branco ou, nas palavras do PM Berlusconi, bronzeado, mas Jackie Brown é - e foi escolhido por isso mesmo por elmore leonard, autor do livro que tarantino adaptou - um nome estereotipado para pessoa de raça negra.
eddie murphy recusou-se a ter o nome de willie biggs, em 48 Hrs (o seu primeiro filme), por achá-lo um estereótipo negro. acabou por ficar reggie hammond, com «reggie» a ser uma concessão dele, porque também um nome estereotipado para negro em hollywood.
Devo dizer, no entanto, que és a primeira pessoa a quem o meu nome "cibernético" incomoda...
Se preferires, podes chamar-me Rui... :)
Pois é, eu realmente não tinha conhecimento desses factos. Mas não, não sou negro, sou branco e realmente escolhi este nome de forma muito inocente, aliás não o fiz recentemente.
Mas de facto não estou a entender esta insistência no nome. Quer dizer, é apenas a minha identidade de blogger. Escolhi este nome, porque gostei dele e agora não tenciono mudá-lo, até porque já me identifico e já outros me identificam como "Jackie Brown".
Se te sentes, de alguma forma, incomodado ou insultado com esta minha escolha, eu lamento muito mas não posso(nem quero) fazer nada a respeito disso a não ser pedir-te novamente, se preferires, que me chames Rui.
Rui,
não me interpretes mal, o teu nome cibernético não me incomoda nada, apenas achei curioso teres escolhido um nome de mulher negra e fiquei espantado quando disseste que o escolheste sem conhecimento de causa, porque ainda nem tinhas visto o filme. mas força nisso.
JB também é um nome com power.
só quis conversar sobre a génese do teu cibernome, não te melindres tu.
Melindrar?
De forma alguma..
Apenas achei algo estranha a insistência, da tua parte, num assunto tão banal e(claramente) pouco interessante...
Tal como já disse, foi apenas uma escolha baseada no nome em si, sem segundos signficados.
:)
então vamos esquecer essa fricção. de que é que gostaste neste T:4?
De muito pouco sinceramente...
Aliás, agora que falas nisso, apenas me ocorre aquilo de que não gostei:P
Possivelmente, o melhor aspecto do filme ainda será o facto de entreter (razoavelmente) bem...
sim, o filme entretém, especialmente porque aquela cena mad max está excelente e pensamos que o filme ainda possa melhorar...
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home