Sinédoque, Nova Iorque, de Charlie Kaufman
A «ocidental praia lusitana» do Canto I dos Lusíadas, de Luis Vaz de Camões, é uma sinédoque, figura de estilo que deriva da palavra grega para «compreensão» e é uma variedade da metonímia, que consiste em exprimir a parte pelo todo ou vice-versa. Mas, assim como Camões nunca encenou uma das suas peças de teatro, argumentistas há que deveriam ser proibidos de sentarem-se atrás das câmaras. Charlie Kaufman, autor das histórias de Ser John Malkovich (1999), Confissões de Uma Mente Perigosa (2001), Adaptação (2002) e O Despertar da Mente (2004) é um desses casos. Se mais nada, falta-lhe a inestimável compreensão do conceito de timing, do tempo que uma cena precisa para respirar antes de tornar-se um hóspede indesejado. O timing do celulóide é diferente daquele que se desenrola no cérebro de quem o pensou. Mas, se isso fosse tudo...
Kaufman pespega a palavra sinédoque no título da sua estreia como realizador, confiante de que o público não sabe o que significa, mas que não passa do equivalente a Viver e Morrer em Los Angeles (William Friedkin, pelo menos, chamava as coisas pelos nomes). Este opus de melancolia não sumariza viver e morrer em Nova Iorque, nem com o académico recurso ao surrealismo, cuja redundância o despe da energia necessária para licenciar as liberdades a que se atribui.
A boa vontade motivada pela anterior criatividade de Kaufman esgota-se rapidamente perante a aridez de ideias mortas ou recicladas. Não se percebe se o inspirava um drama deprimente, mas o que subsiste é um pastiche aborrecido e teimoso, que persegue a própria cauda de forma pouco elegante. Quando, ao fim de uma hora de duração, um personagem diz que se passaram 17 anos, estamos prontos acreditar nele, embora pareça muito mais. E ainda falta outra hora.
Há algumas ideias interessantes em Sinédoque, Nova Iorque (a recriação de cenas com actores que juntam algo na sua interpretação ou provocam desfechos alternativos, os quadros-miniatura de Adèle, a reconstrução de bairros inteiros em estúdio, o skit onde Olive exige ao pai que lhe peça perdão por factos falsos), mas a concretização é débil, retraída, cansativa. O filme não apresenta a menor frescura no arranque e pronto agoniza em desespero, numa enervante desilusão.
Synecdoche New York 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
5 Comments:
Eu gostei bastante. Um dos que mais me surpreendeu este ano!
A mim também surpreendeu ... :(
Ainda há semanas idolatrava aqui mesmo O Despertar da Mente, que é um ode ao desgosto de amor, e eis que Charlie Kaufman decide que chegou a hora de abandonar a ideia de intermediários e dar-nos o inadulterado produto do seu cérebro. Mas quem dera que não o tivesse feito. O filme é demasiado arrastado, desesperadamente secante e parco em curiosidades.
Verdade seja dita, é daqueles filmes cujo trailer é nosso amigo, ele preparava bem para o deserto de ideias e os tropeções de concretização. Mas, como era de Kaufman, decidi arriscar.
É filme penoso de assistir. É como O Estranho Caso de Benjamin Button, ver gente com a cara cheia de latex a fazer de conta que se move com artrite e a dizer bacuradas que, aparentemente, funcionaram no papel. Não retirei absolutamente nada de SNY. Nem lições de vida, nem entretenimento, nem sequer uma história interessante.
Afinal, do que gostaste tu?
«O longo (demasiado mesmo) lamento que é todo o filme acaba por terminar de forma inconsequente, num fade-out que afinal de contas não resultou de nada mais senão do acabamento do discurso.»
Acabo de roubar ao Carlos Antunes do Split Screen esta frase, que a escreveu para Elegia, mas que acho que fica bem para epitáfio deste SNY.
Eu depois de ver k o autor era o mesmo de "O despertar da mente" ainda achei k podia valer a pena mas depois de ler a critica e ver o trailer perdi completamente a vontade de ver o filme...
Acho que vou investir o meu tempo em algum mais interessante:p
sim, investe o teu tempo no fight club, no se7en e no snatch.
Muito Brad, mas bons filmes.
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