Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Sinédoque, Nova Iorque, de Charlie Kaufman

A «ocidental praia lusitana» do Canto I dos Lusíadas, de Luis Vaz de Camões, é uma sinédoque, figura de estilo que deriva da palavra grega para «compreensão» e é uma variedade da metonímia, que consiste em exprimir a parte pelo todo ou vice-versa. Mas, assim como Camões nunca encenou uma das suas peças de teatro, argumentistas há que deveriam ser proibidos de sentarem-se atrás das câmaras. Charlie Kaufman, autor das histórias de Ser John Malkovich (1999), Confissões de Uma Mente Perigosa (2001), Adaptação (2002) e O Despertar da Mente (2004) é um desses casos. Se mais nada, falta-lhe a inestimável compreensão do conceito de timing, do tempo que uma cena precisa para respirar antes de tornar-se um hóspede indesejado. O timing do celulóide é diferente daquele que se desenrola no cérebro de quem o pensou. Mas, se isso fosse tudo...

Kaufman pespega a palavra sinédoque no título da sua estreia como realizador, confiante de que o público não sabe o que significa, mas que não passa do equivalente a Viver e Morrer em Los Angeles (William Friedkin, pelo menos, chamava as coisas pelos nomes). Este opus de melancolia não sumariza viver e morrer em Nova Iorque, nem com o académico recurso ao surrealismo, cuja redundância o despe da energia necessária para licenciar as liberdades a que se atribui.

A boa vontade motivada pela anterior criatividade de Kaufman esgota-se rapidamente perante a aridez de ideias mortas ou recicladas. Não se percebe se o inspirava um drama deprimente, mas o que subsiste é um pastiche aborrecido e teimoso, que persegue a própria cauda de forma pouco elegante. Quando, ao fim de uma hora de duração, um personagem diz que se passaram 17 anos, estamos prontos acreditar nele, embora pareça muito mais. E ainda falta outra hora.

Há algumas ideias interessantes em Sinédoque, Nova Iorque (a recriação de cenas com actores que juntam algo na sua interpretação ou provocam desfechos alternativos, os quadros-miniatura de Adèle, a reconstrução de bairros inteiros em estúdio, o skit onde Olive exige ao pai que lhe peça perdão por factos falsos), mas a concretização é débil, retraída, cansativa. O filme não apresenta a menor frescura no arranque e pronto agoniza em desespero, numa enervante desilusão.

Synecdoche New York 2008

5 Comments:

Blogger Tiago Ramos said...

Eu gostei bastante. Um dos que mais me surpreendeu este ano!

8/31/2009 12:49 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

A mim também surpreendeu ... :(

Ainda há semanas idolatrava aqui mesmo O Despertar da Mente, que é um ode ao desgosto de amor, e eis que Charlie Kaufman decide que chegou a hora de abandonar a ideia de intermediários e dar-nos o inadulterado produto do seu cérebro. Mas quem dera que não o tivesse feito. O filme é demasiado arrastado, desesperadamente secante e parco em curiosidades.

Verdade seja dita, é daqueles filmes cujo trailer é nosso amigo, ele preparava bem para o deserto de ideias e os tropeções de concretização. Mas, como era de Kaufman, decidi arriscar.

É filme penoso de assistir. É como O Estranho Caso de Benjamin Button, ver gente com a cara cheia de latex a fazer de conta que se move com artrite e a dizer bacuradas que, aparentemente, funcionaram no papel. Não retirei absolutamente nada de SNY. Nem lições de vida, nem entretenimento, nem sequer uma história interessante.

Afinal, do que gostaste tu?

8/31/2009 12:57 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

«O longo (demasiado mesmo) lamento que é todo o filme acaba por terminar de forma inconsequente, num fade-out que afinal de contas não resultou de nada mais senão do acabamento do discurso.»

Acabo de roubar ao Carlos Antunes do Split Screen esta frase, que a escreveu para Elegia, mas que acho que fica bem para epitáfio deste SNY.

8/31/2009 1:16 PM  
Blogger Sam said...

Eu depois de ver k o autor era o mesmo de "O despertar da mente" ainda achei k podia valer a pena mas depois de ler a critica e ver o trailer perdi completamente a vontade de ver o filme...

Acho que vou investir o meu tempo em algum mais interessante:p

9/01/2009 2:48 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

sim, investe o teu tempo no fight club, no se7en e no snatch.
Muito Brad, mas bons filmes.

9/04/2009 12:02 AM  

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