Noite de Luta, de Jonathan Dillon
Originalmente intitulado Rigged («luta combinada») e alterado para Fight Night para a exportação de língua não inglesa (o realizador considerou Rigged de difícil tradução), Noite de Luta não deixa de cumprir o título, mas o seu argumentista (Ian Shorr, de Splinter) perde-se em demasiados becos sem saída, que inquinam um possível realismo e exacerbam as falhas.
Um organizador de combates underground, desonesto mas cheio de falinhas mansas e cara laroca (Chad Otis dá ares a Tom Cruise) encontra o esquema ideal: uma lutadora com técnica e estamina suficientes para derrotar homens com o dobro do tamanho, mas em quem ninguém aposta pelo seu tamanho reduzido (face ao gado que normalmente domina essas arenas de poeira). Rebecca Neuenswander, 29 anos, é a lutadora. Um invejável físico de atleta e um estonteante par de olhos verdes de fazer avançar o trânsito, ela traz no currículo o título mundial de Taekwondo de 2000, mas infelizmente não levanta as pernas (em vez de aproveitar os méritos da actriz em artes marciais, Noite de Luta fica-se pelo pugilismo). Rebecca Neuenswander, porém, mereceria toda a atenção, até de braços atrás das costas.
Como fita independente que é, já se encontrava em pré-produção quando Million Dollar Baby – Sonhos Desfeitos, de Clint Eastwood, se fez aos Óscares de 2005 e o realizador considera que isso o ajudou a promovê-lo como um misto de Million Dollar Baby e de Fight Club. Pessoalmente, considerá-lo-ia muito mais próximo de Lutador de Rua, estreia cinematográfica de Walter Hill em 1975, com um desconhecido (Charles Bronson) que surge num comboio de carga, decidido a tomar o submundo do boxe ilegal de surpresa, é ajudado por um fiúza e termina com um combate arranjado.
Noite de Luta deixa um sabor amargo na boca, sabor a quem comprometeu os seus princípios em troca de facilitismo narrativo, um ritmo mais agressivo e um final desajustadamente cor de rosa. Mardick Martin, argumentista de O Touro Enraivecido, elogiou-lhe a história e os personagens bem desenvolvidos, o que me faz perguntar se vimos o mesmo resultado final. Efectivamente, apesar da divulgação de uma montagem de 71 minutos, à qual tive acesso, o IMDb atribui ao filme uma duração de 100 minutos e a Wikipédia de 105. Provavelmente, a sensação de indistinção de objectivos e falta de coesão poderão, eventualmente, ter sido acautelados. Na versão que saltitou por inúmeros festivais e até arrecadou alguns prémios (Melhor Filme, Actriz e Cinematografia), porém, há elementos narrativos muito mal geridos e demasiada excitação com a edição esquizofrénica e a fotografia deslavada.
Apesar dos defeitos de Noite de Luta, é inegável o amor à camisola que tentou contornar a indigência financeira, os actores dão o seu melhor e a coreografia dos combates tem alguns méritos, se não fosse aquele pormenor irritante em que sabemos que seria fisicamente impossível a um pugilista resistir a determinado golpe e este regressa para a vitória. Por falar em golpes, é incontornável o comentário à maquilhagem: metade do tempo, ambos os protagonistas apresentam equimoses no rosto e mesmo assim têm sex appeal.
Rebecca Neuenswander fundou e participa nas actividades da Fundação HALO, que promove a expressão artística de órfãos em situação crítica (África, Ásia, América do Sul) e leiloa os seus trabalhos para financiar esses mesmos apoios.
Rigged / Fight Night 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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