Sexta-feira, Agosto 14, 2009

Aniversário Macabro, de Wes Craven

O slogan «Para evitar desmaiar, repita para si próprio que é só um filme, é só um filme», apenso ao cartaz promocional da primeira longa metragem de Wes Craven, seria totalmente dispensável, porque óbvio. A Última Casa À Esquerda (que chegou a ter os títulos provisórios Crime Sexual do Século e Casa de Banho Masculina) não engana o mais distraído.

Com 33 anos, um emprego de taxista e de editor de som no currículo e uma licenciatura em escrita e em psicologia, o futuro criador de Freddy Krueger travou amizade com Sean S. Cunningham (futuro criador de Jason Voorhees e da respectiva saga Sexta Feira 13, iniciada em 1980) e participou como produtor executivo no segundo filme deste, Together (1971). Apesar de Cunningham vir a tornar-se uma referência do terror camp, os seus dois primeiros filmes (The Art of Marriage e Together) eram falsos documentários sobre sexualidade, com pessoas nuas a falarem sobre as suas experiências.

Um ano mais tarde, os papeis inverter-se-iam e A Última Casa À Esquerda foi o resultado da parceria. Craven, sem experiência nem orientação, concebeu um clássico de como não se deve fazer um filme de terror. Actores insuportavelmente maus, total ausência de mise en scène e uma banda sonora autista (cenas de tensão mergulhadas em bluegrass prazenteira) e um encadeamento de eventos sem lógica (apesar de virem a conduzir desde a cidade e sem saberem onde Mari mora, tomam o caminho que leva à sua casa e o carro avaria mesmo à porta dela; a violação de Mari é encarada como o evento chocante central, mas Phylis já tinha sido violada na véspera e não se lhe deu a menor relevância; antes que nos apercebamos, a família homicida já se fez hóspede dos Collingwood, sem terem a menor justificação; as peripécias ridículas passadas com os polícias).

A inspiração para A Última Casa À Esquerda terá sido A Fonte da Virgem (1960), de Ingmar Bergman, mas o seu objectivo era bem diferente, ficando-se pelo ensejo belicoso de chocar um público pouco habituado a manifestações de sadismo mal concebido e ainda pior representado. Para não repetir a menção ao desajuste da banda sonora (da autoria do actor David Hess, que tem o papel de Krug) ou a incapacidade dos actores veicularem emoções credíveis, fica também o absurdo de interromper as cenas mais intensas com enxertos pseudo-humorísticos (e desgraçadamente fracassados enquanto tal).

Desde a sua estreia que se tem tentado elevar o filme a um estatuto que o mesmo não suporta. Os abjectos eventos narrados não são acompanhados do menor desenvolvimento ou análise, constituindo uma mera manifestação de sadismo gratuito, não sendo a inerte naturalidade com que é exibido um sinal de glorificação, mas um exemplo de vulgaridade a todos os níveis técnicos inepta. Com um tratamento capaz, uma réstia de preciosismo ou uma equipa motivada, talvez se pudesse salvar alguma coisa dos destroços. Da forma como o produto foi apresentado, apenas se consegue ver o péssimo acabamento de uma matéria prima que já não primava pela qualidade. Aborrecido e incompetente, A Última Casa À Esquerda não assusta, não enoja, porque não funciona.

Wes Craven é um realizador desigual e inconsistente. Reconhecido como o autor de Pesadelo em Elm Street (1984) e da trilogia Gritos (1996-2000), o seu percurso cinematográfico conta com tantos buracos como buchas, como realizador e produtor. Apesar do seu sucesso emergente, o destino dos restantes envolvidos não foi tão sorridente. Após A Última Casa À Esquerda, Sandra Peabody (a vítima Mari) fez apenas meia dúzia de filmes eróticos; Lucy Grantham (a vítima Phyllis) desligou-se da sétima arte; David Hess (o assassino Krug) perdeu-se em papeis secundários, em inúmeros filmes e séries, chegando a realizar o ignorado To All A Good Night, em 1980; Fred Lincoln (o naifa) realizou, desde 1976, mais de 300 filmes para a indústria pornográfica; e Jeramie Rain (a sádica Sadie) fez apenas três filmes, foi casada com Richard Dreyfuss de 1983 a 1995 e fundou a associação de caridade Mother’s Care.

Se o que ficou acima assinalado não ilustrar suficientemente a nulidade da película, três cenas flagrantes: após fugir dos captores num bosque que conhece (ao contrário deles), e que fica a poucos quilómetros da casa dos pais de Mari, Phyllis corre às voltas e sem grande ímpeto, ao ponto de os perseguidores desistirem e ela, inadvertidamente, vir dar com eles; no fim da perseguição, o naifa desembainha o seu canivete de ponta-e-mola, quando antes de iniciar a perseguição o tinha entregue a outro que ficou para trás (tinha dois canivetes?); os pais de Mari encontram o corpo baleado da filha na margem do lago, ainda de olhos abertos e a mexer a cabeça por vontade própria, mas o pai (médico de profissão) profere solenemente (e sem que os seus lábios mexam, em voiceover): «está morta».

Last House On The Left 1972

2 Comments:

Blogger Luis Adriano said...

Sabe, mesmo lendo tudo isso sobre o filme, eu ainda morro de vontade de vê-lo. Alguns filmes, mesmo que não tenham muita qualidade, acabam virando cults. E acredito que A Última Casa À Esquerda seja um desses casos. Faz tempo que desejo vê-lo, ainda que eu creia que eu vá ficar pasmo com tamanha incoerência e desperdício.
Tão logo que o vir, virei aqui dizer se concordo ou discordo da sua opinião.
;)

Se quiser faze ruma visita:
http://literaturaecinema.blog.terra.com.br/

8/15/2009 12:58 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

já tinha visto o filme há uns anos e não me ficou nada na memória. ao assistir ao remake de 2009, mil vezes melhor, decidi rever o original, para perceber as diferenças. são abismais.

obrigado por teres passado por aqui. a próxima paragem será na tua casa.

8/15/2009 1:18 AM  

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