Gabriel, de Shane Abbess
Segundo a teologia judaica, Deus disse Faça-se Luz e o interruptor acendeu a Estrela da Alvorada, leia-se Lúcifer. Quando este, o primeiro Anjo, se rebelou contra Deus, foi Gabriel quem fez queixa dele e Miguel quem o escorraçou do Céu. Os Arcanjos (anjos principais) presidiam a coros e eram entre nove e quinze, mas o Catolicismo baseado no Antigo Testamento reduziu-os a quatro (Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel). As igrejas Protestantes mencionam apenas três (Lúcifer, Miguel e Gabriel). As Testemunhas de Jeová invocam haver apenas um, Miguel, pois a Bíblia usa só o termo no singular, e Miguel é identificado como Jesus Cristo. Na Cabala, os arcanjos são sete e Lúcifer não se encontra entre eles. No Islão, são cinco e incluem Lúcifer. Este preâmbulo poderia ajudar a compreender o filme em mãos, mas o argumento de Matt Hylton Todd faz tábua rasa de toda a mitologia e inventa uma miserável cowboyada de pistoleiro solitário que vem limpar a cidade do pecado.
O vilão do filme é Samael, identificado como o Anjo da Morte nas tradições judaicas (foi ele quem desposou Lili, depois de Adão a ter rejeitado, e copulou com Eva, sendo pai de Caim). Nas tradições canónicas cristãs, Samael é Lúcifer, derrotado por Miguel durante a revolta contra Deus e tombado no Inferno. Mas Gabriel está decidido a contar a história à sua maneira, e logo um narrador se antecipa à primeira imagem para se explicar. Só que, por mais ridículo que pareça, até a inventar o argumentista vai meter os pés pelas mãos, nem sequer atingindo lógica interna.
Temos o Céu, o Inferno e o Purgatório. No Purgatório ficam as almas dos humanos que nenhum dos dois lados quer, mas ocasionalmente lá surge um que merece atenção. Ambos os lados mandam um enviado para ir buscá-lo e o lado que ganhar, leva-o. Há sete Arcanjos e sete Caídos (em Desgraça?) e apenas um de cada é enviado para lutar por essa alma humana. Desta vez, cabe a vez a Gabriel. Mas, conforme a história se desenvolve, verificamos que Gabriel não anda atrás de nenhuma alma humana, nem o Inferno lançou nenhum Caído para o mesmo efeito. Pelo que se percebe, todos os Caídos estão já no Purgatório e até os outros seis Arcanjos, que se escondem nas sombras com medo da vingança dos Caídos, que governam a podridão do Purgatório. À falta do Clint Eastwood num cavalo branco, são distribuídas gabardinas pretas do guarda-roupa de O Corvo (1994) e lentes de contacto com diversos efeitos de pigmentação.
Desértico desperdício de película vindo da Austrália, Gabriel não faz mais do que evidenciar a mais atroz falta de talento. Videoclip de baixo orçamento (o filme inteiro custou apenas 150 mil dólares australianos) e uma presunção que raia o ridículo, é duvidoso que parecesse interessante até no papel. Escrito e realizado por um estreante em ambas funções e com actores inexperientes, nota-se uma total falta de orientação, com monólogos inesgotáveis a repisar pontos que nem ao mais desatento teriam passado despercebidos, elaborados na onda das mais vulgares letras de canções heavy metal, cenas de acção muito espaçadas e dignas de bocejo, com seres que são mais rápidos do que balas mas mesmo assim andam aos tiros uns aos outros. Aliás, haverá algo mais tacanho do que anjos e demónios a tentarem matar-se com armas automáticas? Sim, Underworld (2003) esgotou esse filão rapidamente. Gabriel não sai prejudicado se for visto em fast forward. Pelo contrário.
Gabriel 2007
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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