The Book of Revelation, de Anna Kokkinos
Um bailarino vai comprar cigarros para a companheira e desaparece, reaparecendo 12 dias depois, atormentado pelas memórias do estranho cativeiro a que foi sujeito, subjugado sexualmente por três mulheres misteriosas. Esta é a premissa de um filme estranho e de um personagem atormentado, mas que se perde na atracção dos corpos e no desafio de uma certa sexualidade sadomasoquista. O silêncio opressivo não ajuda a compreender os sentimentos e grande parte do drama fica no reino do inexplicado.
Baseado no romance do britânico Rupert Thomson (passado em Amsterdão), o argumento conta com a participação de Andrew Bovell (Strickly Ballroom e Lantana), que já participara na escrita de Head On (1998), o filme anterior de Kokkinos, mas é risível que a realizadora o julgue na mesma linha de Último Tango em Paris e Belle de Jour. Não temos aqui nenhum desbravar de limites sexuais em terreno cinematográfico, como nos projectos mencionados, apenas uma espécie de fantasia que não se decide entre o trauma e o apetecível, com um homem que se diz violado mas que foi sempre capaz de executar os devaneios das captoras de pénis erecto.
Convém indicar que livro e filme seguem orientações demasiado opostas. O filme leva-se demasiado a sério em ambiente e deixa toda a pulsão no ar, por esclarecer, quando no livro o bailarino é um mulherengo e ninguém acha estranho quando este desaparece; igualmente, no filme toda a gente acha que lhe aconteceu alguma coisa que ele não revela mas o preocupa, quando no livro ele esconde a vergonha com facilidade, avançando para a parte seguinte da história, assente num busca de vingança, enquanto que no filme há atitudes desenraizadas por incúria ou inabilidade da realização, que se limitam a pairar e nunca assentam.
Não se sente a revelação do título. Fica, sim, a dúvida em relação ao intento da realizadora, que não é capaz (nem se sabe se o quis) de fazer da violação sexual uma coisa feia e suja, pois que mais parece algo saída da pena de Anaïs Nin e revelada pela câmara de Zalman King. Ficam alguns ingredientes curiosos e a sensação de que o resultado poderia ser bem melhor, se não fosse tão indistinto. Tom Long, Anna Torv e Greta scacchi não saem da cepa torta e a música pedia bailados melhores (Tom Long, o actor, não é bailarino).
The Book of Revelation 2006
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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