
A par do filão dos
reboots, perdura o das prequelas, a permitir fôlego contínuo a
franchises que chegaram a uma encruzilhada. A Marvel avança com
Wolverine e
Magneto, o primeiro para 2009 e o segundo para 2010.

Wolverine dispensa apresentações, pelo seu carácter irascível e garras retrácteis, às quais adiciona uma rápida cura de feridas e esqueleto inquebrável. Poucas surpresas restam do passado de um dos mais icónicos mutantes do universo dos comics, mas um argumento capaz encontraria forma de surpreender. Infelizmente, longe vão os tempos em que Chris Claremont imprimia constantes surpresas a um universo em franco desenvolvimento.
X Men Origens: Wolverine é uma peça estagnada, que aposta num público cego e surdo às informações já veiculadas na trilogia
X Men (2000-2005), limitando-se a um refogado de mutantes, violência gratuita e muito tédio embrutecedor. História básica de vingança, em que os personagens não precisam de incentivo para lutarem uns com os outros e cujos vilões sabemos que irão sobreviver: Dentes-de-Sabre e Stryker surgem, respecticvamente, em
X Men e
X2. Também não é nenhuma surpresa que Wolverine ficará amnésico.

Da baixota, irascível e bruta criatura dos comics, o cinema deu a Wolverine mais do que alguns retoques. O australiano Hugh Jackman substituiu, à pressa, o escocês Dougray Scott (filmagens suplementares para
M:I 2 impediram-no de participar) em
X Men (2000) e o seu carisma, altura e desempenho provocaram uma curiosa troca de lugares de poder. Ciclope, que sempre foi o líder do grupo nas bandas desenhadas, deu por si como figura secundária e sem o menor fulgor, e é Wolverine a tomar as decisões. Isso é de tal modo notório que James Marsden não viu a hora de despir o uniforme da vergonha, fugindo com o realizador Bryan Singer para a franchise Superman (
Superman Regressa, 2005), onde mostra mais desenvoltura do que o palhaço Brandon Routh, o Superman de serviço. Como curiosidade extra, também Mardsen foi uma aquisição de última hora como Ciclope, devido à desistência de Jim Caviezel.

O restante elenco de
X Men Origens: Wolverine é demasiado desigual: Danny Huston e Liev Schreiber são suficientemente sólidos, mas as bissectrizes que se traçam pela escolha desses actores seriam escusadas: Huston, rodeado de dentes afiados, já os teve em
30 Dias de Noite; Schreiber é o irmão bruto de Wolverine, papel próximo ao de
Resistentes (2008); Ryan Reynolds, como parte da Team X, parece retroceder na carreira, ele que já em 2005 soltava
one liners como parte do ensemble Blood Pack de
Blade Trinity; Dominic Monaghan e Kevin Durand saíram da série
Lost; Will.i.am, da banda Black Eyed Peas, é mais um exemplo de como músicos não são actores; Scott Adkins, que já deu o rosto ao vilão de
Só Um Sairá Vencedor 2, é aqui o duplo de Ryan Reynolds para as cenas mais complicadas de Mutante XI.
X Men Origens: Wolverine é vítima do guião preguiçoso de David Benioff (com participação de Hugh Jackman) e da realização do sul-africano Gavin Hood, que apresentam um trabalho digno de primatas. A violência comanda a história, uma narrativa limitada à exacerbação das emoções básicas de raiva e ódio, deixando de fora o menor rasgo de inteligência ou coerência interna (Stryker incorporou adamantium no esqueleto de Wolverine, tornando-o indestrutível, mas avisa os captores que devem cortar-lhe a cabeça para o matarem; ora, se o adamantium é inquebrável, é impossível separar a cabeça de Wolverine do tronco, e Stryker deveria sabê-lo). Gavin Hood é o realizador do marcante
Tsotsi (2005), mas também do desinspirado
Rendition (2007). Na memória ficará uma única cena de
X Men Origens: Wolverine, que envolve uma moto e um helicóptero.

Harry Gregson-Williams compôs a banda-sonora, tendo conduzido uma orquestra de 78 elementos e um coro de 40 vozes. Apesar da qualidade do trabalho do compositor das duas primeiras
Crónicas de Nárnia (por alguma razão, David Arnold está contratado para a terceira) oscilar muito, Gregson-Williams tem dado inúmeras cartas ao longo da última década. A partitura de
X Men Origens: Wolverine é descartável, com a aposta no entretenimento a desenvolver-se mais no campo da percussão electrónica cheia e ribombante. Não é que esteja mal, mas não é desta que tira a prata e o ouro a John Powell e a Brian Tyler.
Wolverine 2009
1 Comments:
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