
Frank Miller, percursor do conceito de
graphic novel desde 1978, revitalizou personagens como Demolidor e Batman antes de, nos anos 90, adoptar um estilo muito próprio, a preto e branco, numa saga policial que intitulou
Sin City. Entrou e saiu da 7ª Arte com o argumento de
RoboCop 2 (1990), zangado por as rescritas terem deturpado a sua ideia original, e foi preciso Robert Rodriguez mostrar-lhe que era possível ser fiel aos seus desenhos para convencê-lo a co-realizar a adaptação de
Sin City (2005). Ainda em estado de graça, alguns meses após essa estreia
, foi abordado para desenvolver a famosa comic strip de Will Eisner,
The Spirit, para o grande ecrã.

Will Eisner foi colega de escola de Bob Kane (criador de Batman) e desenhador de bandas desenhadas de super-heróis desde os 19 anos. Em 1939, vendeu a sua parte na lucrativa editora Weisner & Iger para se entregar à criação de um novo herói,
The Spirit, para a edição de Domingo do Washington Star. Durante décadas, uma equipa inteira dedicou-se a colocar o personagem em histórias policiais, de terror, romances e comédias, sob a batuta de Weisner. Atribui-se-lhe a primeira
graphic novel americana,
A Contract With God & Other Tenement Stories, deu aulas de Desenho Sequencial na Escola de Artes Visuais, palestras e escreveu dois livros populares sobre o assunto. Em 1988, foi instituído um prémio em sua honra, o Will Eisner Comic Industry Award.

Para
The Spirit, a opção estética de Frank Miller foi de aprofundar o conceito adoptado em
Sin City, mas introduzindo cor e rotoscopia num universo anteriormente estático e embrionário. Lynn Varley, ex-mulher de Miller e colorista da maior parte das suas
graphic novels, já dera vida aos cenários digitais de
300 (2006). O problema de
The Spirit não é esse, mas o resto.

Will Eisner inspirara-se nos policiais de Raymond Chandler e Dashiel Hammett, mas Frank Miller, que escreveu o argumento, moldou-o à sua própria imagem. Infelizmente, esta já não é o que era. O homem que outrora humanizou Matt Murdock e hiperbolizou Bruce Wayne estava longe de ser a pessoa indicada para dar vida a Denny Cole. Travesti de
film noir plástico e cheio de tiques,
The Spirit envergonha a memória de Eisner e ofende as expectativas do público, que nunca sente que o mesmo o convida a entrar, de tão hermético e teatral. Os personagens não passam de arquétipos com discursos vazios e interpretações pedantes, o herói é ridículo (Gabriel Macht) e o vilão burlesco (Samuel L. Jackson). Pelo meio, uma amada (Sarah Paulson) e uma inimiga (Eva Mendes) tão apagadas como sombras. Muito Miller, pouco Weisner.

Em suma, Frank Miller atinge um novo nível de superficialidade, que vale unicamente pela força da imagem. O realizador interpreta a personagem Liebowitz, um receptador que trai Sand Serif. É a quinta aparição de Miller em frente às câmaras, e não espantaria se a última.
The Spirit 2008
0 Comments:
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home