Terça-feira, Maio 26, 2009

Jesus Is Magic, de Liam Lynch

Jesus is Magic, filme-concerto de Sarah Silverman de 2005, consiste na gravação do homónimo one woman show de comédia de pé, salpicado com meia dúzia de sketches e canções para encher, visto que a duração do stand up amonta a apenas 40 minutos (o total é de uns míseros 72 minutos).

A noção de piada edgy de Silverman, neste espectáculo, consiste na verbalização do seu conceito «it’s funny because its totally unfunny» e não há dúvida de que atinge o seu objectivo. A artista procura chocar o público com assuntos taboo e obscenidades, a contrastar com uma atitude enganadoramente ingénua e adorável.

Mesmo apreciando-se uma saudável dose de incorrecção política, o stand up de Silverman é demasiado forçado, acabando os momentos engraçados por corresponderem a um oásis no imenso deserto de subversão meramente grosseira. Os sketches musicais são tristemente embaraçosos, tanto pelas rimas pobres como pelas toadas básicas, ainda que se lhe reconheça uma voz melodiosa.

Com temas que passam pelo sexo, SIDA, racismo, religião, holocausto, velhice e anões, o repertório da performer peca pela narrativa frouxa e um timing horroso, fazendo pausas e engasgando-se em tiradas que pediam fluidez, permanecendo uma sensação de nervosismo que não favorece o encadeamento do discurso.

Aos fãs da sitcom Sarah Silverman Program, a amarga sensação de desilusão que este filme provoca só pode desculpar-se enquanto ground zero para a comediante, um baptismo de fogo pouco inspirado, mas que serviu para dar a conhecer este atraente bulldozer de rosto angelical e mente porca.

Silverman saltou para a ribalta quando Conan O’Brien foi obrigado pela NBC a desculpar-se publicamente por tê-la deixado contar uma anedota rotulada de racista (em que chamava chinocas aos chineses) no programa Late Night, mas esta trintona (nascida em 1970) de pele de porcelana estreou-se como comediante no Saturday Night Live (1993-4), tendo sido despedida (por fax) ao fim de uma temporada por não se lhe ter aproveitado mais do que um sketch. Teve pequenos papeis em filmes como Doidos por Mary, Escola de Rock e Rent e desde Fevereiro de 2007 que tem um programa de cerca de 25 minutos no canal Comedy Central, The Sarah Silverman Program. Posou para a revista Maxim e passou de nº50 para nº29 na hot list da revista, de 2006 para 2007. A sua (horrível) canção I’m Fucking Matt Damon (Janeiro 2008) foi um imediato êxito no youtube. Para promover o seu programa em Inglaterra, não impressionou as plateias britânicas, tendo sido vaiada num espectáculo em que o artista de aquecimento faltou e ela teve de correr para o palco de pantufas; o público não gostou que ela tentasse dar o show por terminado em pouco mais de 40 minutos e o improviso do encore foi decepcionante (os quarenta minutos tinham esgotado o material preparado).

Irreverente por trás da falsa inocência de olhos grandes e discreto sex appeal, Sarah Silverman tem o que é preciso para o papel que se propôs, apenas se lhe pedia melhor material. Jesus Is Magic teria funcionado minimamente se ela tivesse mostrado dedicação e empenho em vez de impulsividade. Um realizador que fosse mais do que um manobrador de câmara também teria ajudado (inteligência, então, teria sido um prémio para Liam Lynch, que na faixa de comentário do DVD demonstra ter nascido sem nenhuma). Assim, é com agonia que se arrasta uma rotina de stand up com demasiadas arestas para se aguentar sozinha ou com a ajuda dos inanes e deslocados sketches. O futuro de Silverman revelou-se promissor mas, pela qualidade de Jesus Is Magic, bem podia ter acabado aqui.
Jesus is Magic 2005

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