Hounddog, de Deborah Kampmeier
Deborah Kampmeier escreveu e realizou um pedaço de bosta a secar ao sol. No meio dessa bosta, terá sido filmada a cena de violação de uma menor. Ainda corria o último dia de filmagens e os ventos da polémica iriam levantar poeira. Fanáticos religiosos e extremistas de direita, encabeçados pela censura cinematográfica da MPAA e pelo site Concerned Women of America (Mulheres Preocupadas da América), lançaram uma campanha difamatória e de boicote ao filme, invocando razões de chocado moralismo.
Desconhece-se a duração prevista para a cena controversa, mas na montagem final subsistiram apenas alguns segundos sem a menor repercussão. Tenha sido por compromisso com os investidores ou derrota perante a polémica, o resultado foi uma fugaz cara assustada e uma mão na lama. O mal é que, para um filme que se arrasta tristemente desde os primeiros momentos, essa poderia ser a única cena a salvá-lo do esquecimento. Na indisponibilidade da mesma, fica David Morse a ser arrancado de um tractor por um raio, durante uma tempestade. Vale a pena ver duas vezes, de tão mal articulada que é a sequência.
No sul norte-americano dos anos 50, uma miúda loira que troca beijos pela visão de pilinhas aceita despir-se enquanto dança e canta Hounddog, de Elvis Presley, para ganhar um bilhete para o concerto do Rei do Rock, mas recebe mais (e menos) do que estava à espera. Esta nem é sequer a história central do filme, que se dispersa por um punhado de ideias inconsequentes e desperdiça os talentos de Dakota Fanning, David Morse e Robin Wright Penn. O anterior filme de Deborah Kampmeier (Virgem, 2003), que aparentemente teria escrito o guião de Hounddog já em 1996, é muito mais versado sobre a sexualidade púbere.
Se foi a idade de Dakota Fanning que fez exaltar os ânimos, Brooke Shields tinha a mesma idade (12 anos) quando efectivamente se despiu (o que não acontece com Dakota, a quem apenas vemos as pernas e alguns meneios libidinosos de roupa interior) no filme Pretty Baby, de Louis Malle (1978) e voltou a mostrar mais carne (do que Dakota) na Lagoa Azul, aos 14. Pia Zadora, aos 17 anos, também criou polémica pela nudez incestuosa de Butterfly (1982), mas já lá vai um quarto de século. Hounddog é mais uma montanha que pariu um rato. E um deveras desinteressante. A rápida cena nem sequer é credível, tendo sido filmada com a actriz sozinha, sem ninguém por cima dela, e o seu corpo hirto nem sequer produz os movimentos ondulatórios típicos da cópula.
Com uma narrativa pedestre e maçadora e uma realização plana, Hounddog não sobrevive à pobreza do conjunto. Robin Wright Penn ainda encontra uma cena para brilhar, já David Morse não satisfaz como retardado (nem no início da carreira, em filmes como o remake de Desperate Hours, 1990, convencia nesse papel – a expressão do seu olhar conta mil significados; nos filmes em que ostenta um olhar vidrado, a sua participação é escusada) e Dakota Fanning, estrela infantil, parece demasiado petulante, ao ponto de a sua personagem, mesmo após ser alvo de violação, não motivar especial simpatia.
Hounddog 2007
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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