Quarta-feira, Maio 20, 2009

A Céu Aberto, de Kevin Costner

História simples de reparação de uma injustiça, filmada por um Kevin Costner que respira timing. Nessa exímia gestão do ritmo cinematográfico, é capaz de fazer-nos sentir as pastagens, o suor e os sentimentos dos personagens. Com poucas palavras, dois homens que se conhecem e respeitam há dez anos passam a irmãos, as suas armas distinguem justiça de vingança e o cheiro a pólvora sabe coabitar com o da loiça de chá fumegante. As emoções exaladas são básicas e próximas do coração humano: amizade, honra, ódio e amor. E são todas tratadas condignamente, a carburarem em tempo próprio.

Kevin Costner devia vestir-se de cowboy em todos os carnavais da sua meninice, porque nunca se lhe viu um prazer igual ao de representar em Silverado (1985). Lawrence Kasdan voltou a pô-lo a cavalo em Wyatt Earp (1994), mas por essa altura já Costner não sabia o que era andar sem esporas. Em 1987, limpara Chicago da ameaça Al Capone (Os Intocáveis) e livrara os índios do estigma de maus da fita (Danças Com Lobos, 1990), ao mesmo tempo que se enchia de Óscares (sete).

Quis continuar nesse seu território por excelência, mas molhar as pradarias (Waterworld, 1995) ou transformá-las em território Mad Max (O Mensageiro, 1997) provou ser contraproducente. O brilho da estrela do Príncipe dos Ladrões (1991) nunca mais foi o mesmo. Depois de um ano sabático, regressou à representação com uma a duas produções por ano, mas foram precisos seis anos para se sentir confiante atrás das câmaras. A Céu Aberto é a prova de que foi a escolha acertada.

Filmado como os clássicos western dos anos 50 e fazendo tábua rasa dos anos de Peckimpah e Leone, Kevin Costner filma a complacência com ímpeto e a tragédia com valentia. Os seus personagens não têm ironia e dão-se a conhecer nas fraquezas e embaraços, ao mesmo tempo que não se vergam ao que tem de ser feito. E é um filme determinado, porque, quase após a introdução, sabemos que a história é um compasso de espera para o tiroteio final, onde a justiça se fará pelas armas, à maneira americana. E sabe bem esperar por esse tiroteio, porque o melhor do filme passa-se aí. Não obstante, o shootout é empolgante e soa a genuíno; só não é realista que tantos rufiões sejam mortos por um único tiro e o chefe-vilão escape com vida a tantos rounds desperdiçados. Já se sabe que sem ele acabava o filme, mas o que é exagerado não pode ser bem aceite.

Kevin Costner soube rodear-se de talento. Os excelentes Robert Duvall, Annette Bening e Michael Gambon cobrem a frente da representação e Michael Kamen trata da banda sonora (faleceu nesse ano). O director de fotografia é o experiente J. Michael Muro, que se estreia aqui na função, mas já em Danças Com Lobos trabalhava como operador de câmara. Por último, uma opinião sobre a construção da tensão, em A Céu Aberto. Denota-se uma aprendizagem da cadência que John Carpenter imprimiu a Halloween, na sua técnica de antecipação e retardamento, aprendida por sua vez com Hitchcock.

Open Range 2003

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