Alvo A Abater, de John Madden
Da BBC até Hollywood foi preciso Shakespeare apaixonar-se (1998), mas John Madden não tem mostrado o mesmo fulgor com que tratou a paixão do bardo. O Mandolim do Capitão Corelli (2001) foi um claro retrocesso e o curioso exercício em esquizofrenia de Proof – Entre o Génio e a Loucura (2005) é apenas interessante, mais do que pode dizer-se de Killshot.
Elmore Leonard é um escritor policial inúmeras vezes adaptado ao cinema (O Comboio das 3 e 10, Be Cool, Romance Perigoso, Jackie Brown, Get Shorter, Mr Majestyk, etc.), mas o valor de uma adaptação está na assimilação do material original e na entrega, não só de uma história a contar, mas a sentir. John Madden começa o filme a disparar em diversas direcções: uma introdução executada friamente; as letras do título em fonte camp, a encherem a tela de vermelho berrante; e a nudez de Alexis Butler. Depois a história arranca e revela-se uma trapalhada.
Publicado em 1989, o romance de Elmore Leonard não apresenta, hoje, a menor originalidade ou surpresa. Um assassino da Máfia que não deixa testemunhas vivas e um casal em fuga porque viu o seu rosto por acaso é enredo que já passou por todas as séries policiais dos últimos trinta anos. Não é novidade. Mas a alma que se imprime a uma película ainda pode ir muito longe. Infelizmente, não neste caso. John Madden é pragmático, em vez de meticuloso, e os actores não apresentam a menor profundidade. Mickey Rourke é incapaz de manifestar emoção, Joseph Gordon-Levitt mostra-a em demasia (que overacting vergonhoso) e o casal Diane Lane/ Thomas Jane emula as suas expressões simpáticas de sempre; Rosario Dawson, que espanta ver num papel tão secundário, está apagada e não é credível ao lado de Gordon-Levitt.
Killshot é plano e sem chama. Não cria empatia com os personagens, os actores não se esforçam, o realizador não tem pulso firme. Sam Peckimpah teria arrancado do texto de Elmore Leonard um western urbano electrizante, mas John Madden é desleixado. A rodagem do filme terminou em Janeiro de 2006, mas inúmeras refilmagens atrasaram a sua estreia. Inclusivamente, todas as cenas com Johnny Knoxville, a representar um polícia corrupto, foram cortadas por o personagem ter desagradado às plateias de teste. A banda sonora, a cargo de Klaus Badelt, é agardável. Fica a curiosidade: em 2002, o filme esteve para ser realizado por Tony Scott, com Robert DeNiro e Quentin Tarantino nos papeis que foram parar a Rourke e Gordon-Levitt.
Killshot 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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