Segunda-feira, Abril 06, 2009

O Som do Trovão, de Peter Hyams

Quando se assiste a uma aventura sobre viagens no tempo e a vontade é de retroceder apenas hora e meia, isso diz muito sobre o filme em questão. Trôpega e leviana adaptação do conto homónimo de Ray Bradbury, um dos maiores exponentes da literatura de ficção científica do século XX, O Som do Trovão é um sussurro, expressão equiparável a «uma montanha que pariu um rato».

O realizador de 2010 – O Ano do Contacto (1984) até já tinha feito Jean Claude Van Damme viajar ao passado em TimeCop – Patrulha do Tempo (1994), mas provavelmente terá levado um pontapé de que nunca mais recuperou. Voltou a filmar com JCVD no ano seguinte (Morte Súbita, 1995) e atirou um Tom Sizemore pré-escândalo pornográfico para o meio de um museu com um monstro pré-histórico (Relic, 1997), mas nunca mais teve o seu nome associado a nada remotamente curioso. A sentar-se na cadeira deixada vaga por Renny Harlin (que abandonou o projecto para ir filmar Mindhunters, 2004) e sem um Pierce Brosnan que também saltou fora, Peter Hyams contava ainda com três nomes de currículo aceitável: Edward Burns, Ben Kingsley e Catherine McCormack.

Ao filmarem maioritariamente contra um ecrã verde, mal sabiam os actores que os efeitos especiais seriam tão maus. A produtora original abriu falência durante a pós-produção (as filmagens decorreram durante as cheias de Praga em 2002) e a estreia, que deveria ter ocorrido em 2003, agendou-se para 2005. Ao chegar atrás de Sky Captain E O Mundo de Amanhã (2004), de Casshern (2004) e de Sin City (2005), marcados pela fase dos cenários 100% digitais, é notória a pobreza dos efeitos de O Som do Trovão, incapazes de dar a menor consistência aos cenários ou realidade às criaturas (um filme de 2005 com dinossauros piores do que O Parque Jurássico de 1993). Somado a este percalço, impensável para um filme de ficção científica, está a total ausência de mise-en-scéne ou mesmo de direcção de actores. Sem rei nem roque, O Som do Trovão é mais incompetente do que um filme caseiro, qual videojogo para crianças pouco exigentes.

A própria história falha em lógica. Verdade seja dita que o conto de Ray Bradbury que adaptou não era nada de especial, vivendo mais da ideia do que da concretização. A base é de uma agência de turismo que leva os viajantes a 65 milhões de anos no passado, para que possam caçar um dinossauro que está prestes a ser sepultado por baixo de uma árvore (que lhe vai cair em cima). Tem de ser este dinossauro, porque o importante é não alterar o curso da História. Mas um dos turistas pisa uma borboleta e após o regresso ao presente (meados do séc. XXI), notam-se mudanças imediatas: palavras escritas de maneira estranha em outdoors e o último presidente eleito é aquele que tinha perdido as eleições. No filme, as alterações são muito mais dramáticas e ocorrem em vagas, que vão remetendo a sociedade a um estado vegetativo e à aparição de criaturas como morcegos-pterodáctilos e dinobabuínos. Mas será que a morte de uma borboleta altera a evolução biológica do planeta ao ponto de evitar a extinção dos dinossauros? Então e as alterações climatéricas? Então e o Homem, nunca chegou a existir, a desenvolver-se, a criar a sua civilização e tecnologia? Aparentemente, não.

Não admira que o outrora promissor compositor Nick Glennie Smith tenha desaparecido do cinema e se tenha enterrado nos videojogos. É isso que este filme parece, um desinspirado videojogo. A interacção entre actores e digital é triste. O filme é ridículo em termos de narrativa, efeitos e representação. Quanto ao actor de Ghandi (1982) e da Lista de Schindler (1993), é de frisar que Ben Kingsley também entrou num filme de Uwe boll (BloodRayne, 2005)...

A Sound of Thunder 2005

4 Comments:

Blogger Filipe Machado said...

É triste assistir à decadência da carreira de Edward Burns... Este actor tinha um futuro brilhante pela sua frente...

4/07/2009 11:13 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

e o ben kingsley? o homem oscila tanto entre o bom e o muito mau ...

4/09/2009 8:07 PM  
Blogger Luis Adriano said...

Permita-me concordar com o que você disse: os efeitos são realmente desastrosos e são ainda mais acentuados quando consideramos a época em que eles foram concebidos. Como você mesmo disse, hoje filmes são realizados com o cenário totalmente digitalizado; O Som do Trovão, no entanto, apresenta pouca atuação, desenrolar insatisfatório e efeitos monstruosos.
Não o recomendo às pessoas.

8/15/2009 1:07 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

permito, claro. que este filme seja um aviso à navegação. efeitos especiais maus estragam um filme de ficção científica, mas isso aliado a uma má história e a actores que não se entregam estraga qualquer filme.

8/15/2009 1:27 AM  

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