Segunda-feira, Abril 27, 2009

JCVD, de Mabrouk El Mechri

É a total indigência quando uma ex-estrela de acção tenta piscar o olho à crítica com uma película descaradamente pseudo-artsy. A recuperar de má publicidade, reputação na lama e muita reabilitação de drogas e álcool, o actor anteriormente conhecido como Músculos de Bruxelas regressa à Bélgica para se representar a si próprio num papel dirigido à piedade do público.

Quanto à história, Jean-Claude Van Damme é feito refém num assalto a uma estação de correios e um mal entendido leva a polícia a julgar que ele é o responsável. Profissionalmente desanimado e a lutar pela custódia da filha (na realidade, o actor tem é um filho, mas razões legais obrigaram a mudar-lhe o sexo no guião), o actor só quer sobreviver ao imbróglio e não salvar o dia.

Como uma curiosidade de circo, JCVD aguenta-se bem. Van Damme age com naturalidade e imprime convicção ao seu papel (de si próprio), que acaba por resultar como mais do que uma manobra de marketing. Por decisão do realizador, foi dada liberdade ao actor no tocante às falas, para que usasse as suas próprias palavras (em discurso bilingue), e este empenhou-se, com timing para a comédia (declara que Steven Seagal lhe roubou um papel por se propor a cortar, pela primeira vez na vida, o rabo de cavalo) e para o drama.

A cena mais marcante é um monólogo de seis minutos onde Van Damme se expõe directamente para a câmara, chegando a verter algumas lágrimas sinceras. Interpretada friamente, a cena é patética, pois ele insiste num discurso de Calimero, invocando que nasceu para ser uma estrela mas houve pessoas invejosas que o fizeram perder o estatuto, e agora implora por uma segunda oportunidade. Apesar de tudo, a qualidade de confissão e as lágrimas que a acompanham (o descontrolo das emoções é corrente num ex-toxicodependente, mas vem a calhar a um actor) conferem-lhe um carácter comovente que a torna admissível. Até um super-homem tem direito aos seus momentos de fragilidade e a lamentar as suas fraquezas. Van Damme é credível e a cena funciona. Tanto que a Time Online a considerou como a segunda melhor representação de 2008 (e Heath Ledger teve de morrer para atingir o primeiro lugar). De certa forma, a persona de Van Damme nesta falsa biografia pode ser comparada ao retorno de Stallone com Rocky Balboa (2007) e de Mickey Rourke em O Wrestler (2008), todos eles com um discurso de redenção.

Tecnicamente, JCVD podia ser melhor. Mabrouk El Mechri foi chamado para rescrever o guião existente (vetado pelo protagonista, por se achar retratado como um palhaço) e acabou a dirigir, por isso acredita-se que sabia o que queria. Utilizando o estratagema dos flashbacks para ir preenchendo os buracos da história lentamente, até tudo fazer sentido, constrói um certo suspense e alimenta a personagem principal de suficiente humanidade, criando empatia com o público. Contudo, Van Damme é o único personagem que não é unidimensional. Os polícias são um escape humorístico e o assaltante mais sinistro é uma pobre imitação do icónico Billy Drago. A intenção de uma abordagem realista é prejudicada pelo tratamento visual, com uma direcção de fotografia a apostar demasiado nos filtros de cor, e a montagem deixa arrastar demasiado algumas cenas que deviam ter sido encurtadas.

De qualquer modo, JCVD merece uma oportunidade e o actor a segunda. Ele entrega-se de alma e coração e o filme providencia entretenimento suficiente para não desmerecer.

JCVD 2008

2 Comments:

Blogger Filipe Machado said...

Tenho uma enorme curiosidade para ver este filme. Não acredito que seja um regresso do Van Damme dos velhos tempos, mas sim uma película de qualidade por entre o lixo dos últimos tempos...

4/27/2009 9:34 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

bem, não será o van damme dos velhos tempos por dois motivos: ele não é o homem que era nem este é um filme de acção ou de artes marciais.

quanto a ser um filme de qualidade, também não exageremos. se em vez do van damme fosse qualquer outro actor, o filme não despertaria a curiosidade de ninguém. a produção é da gaumont do luc besson e nota-se, tem aquele ar de videoclip de muito do cinema que sai de lá.

a história é ficcionada. a única parte autobiográfica é o monólogo que pode ver-se já no youtube. e também num documentário do canal + de 2006 (ou isso), que era um dia na vida de van damme. ele já nesse documentário falava em todas as coisas que aqui aborda. as drogas, o abandono, os filmes que fez só pelo dinheiro, a queda de graça. e também aí pede uma segunda oportunidade.

mas não é um filme mau, longe disso, é perfeitamente satisfatório. tem credibilidade, suspense, humor e drama. desde que não se empole a coisa, vê-se bem. volta, van damme, estás perdoado.

e, sim, os seus filmes de acção recentes têm sido vergonhosos. e dois deles estão criticados nestas páginas. Wake of Death e Until Death.

4/27/2009 9:49 PM  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker