Domingo, Fevereiro 15, 2009

Austrália, de Baz Luhrmann

O épico romântico que Baz Luhrmann fez seguir a Moulin Rouge é uma fantasia adolescente, tola e simplória, num cenário que pedia outro tratamento (até Crocodilo Dundee o respeitou mais). Obrigado a desistir de um projecto sobre Alexandre O Grande (porque Oliver Stone estreou primeiro), Luhrmann voltou-se para a Austrália natal e imaginou primeiro uma história passada em 1787, vindo a mudar o período histórico para a Segunda Guerra Mundial (a participação australiana foi bastante tardia). Para além de uma mini-versão do ataque a Pearl Harbour (Michael Bay continua muito à frente) e da história de amor da praxe, é abordado o drama das crianças mestiças retiradas às mães aborígenes e criadas por missionários católicos para servirem famílias brancas (mas a velada hipocrisia dita que a protagonista queira salvar apenas uma criança aborígene à qual se afeiçoou, em vez de preocupar-se com todas as outras na mesma situação).
Sonhando com um E Tudo O Vento Levou em solo australiano, Baz Luhrmann voltou às suas megalomanias visuais, mas desta vez com meios técnicos tão limitados que não há cenário matte que não se perceba ou efeito CGI que não se denuncie de tão arcaico. A própria história não passa de um esboço, que parece avançar através de medleys, com personagens bidimensionais e reacções patéticas, especialmente de Nicole Kidman, tão longe da sensual Satine de Moulin Rouge quanto os anos que separam ambas produções. Com o mesmo colagénio que injectou nos lábios e os seios que reforçou antes de A Invasão (2005), já se vão notando as rugas naquela que não mais convence como menina ingénua e determinada. A actriz ridiculariza-se a cada passo e, quando decide cantar, os tímpanos reconhecem que foi atingido o ponto de saturação.
Hugh Jackman é o action figure e sex symbol do filme, permitindo a Luhrmann filmá-lo a tomar banho de baldes de água, coisa que não teria o mesmo efeito com as banhas de Russell Crowe ou com a magreza de Heath Ledger, nomes avançados antes do de Wolverine. David Wenham, que já foi serviçal de Hugh Jackman em Van Helsing (2004), regressa como mau da fita, ficando para segundo plano Bryan Brown, um dos pioneiros da internacionalização dos antípodas, que sobrevive a apenas meio filme (cuja duração total é de 165 minutos).
Uma história sem consistência, um entretenimento árido e um casal que não funciona é tudo o que Austrália tem a oferecer. Isso e inúmeras situações literalmente estúpidas, como uma personagem que se esconde da polícia no reservatório de água da propriedade onde trabalha, o qual fica a uma altura de cinco metros de altura. A personagem fica exposta enquanto sobe para o depósito por uma escada (só não a vê quem é cego), não sabe nadar e ainda torna imprópria para consumo toda a água do reservatório. Lógica da batata que se repetirá até à exaustão.
Australia 2008

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