Valsa Com Bashir, de Ari Folman
O filme submetido por Israel ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009 é um desenho animado sobre o surrealismo da guerra, assente em testemunhos e nas próprias memórias do realizador acerca da invasão do Líbano em 1982, que culminou no assassinato do Presidente Bashir Gemayel e no massacre de 800 civis nos campos de refugiados de Sabra e Shatila.
Abrindo asas a partir de uma base documental, Valsa Com Bashir conjuga o real com o onírico, compilando recordações do conflito armado perdidas nos fantasmas que os soldados tentaram esquecer. As vivências alteradas pela memória fornecem matéria prima de grande criatividade, que Ari Folman não desperdiça.
As opções gráficas dispersam-se por diversas técnicas, das mais tradicionais às digitais, o que serve perfeitamente a narrativa episódica, dotando-a de uma coesão à partida impensável. David Polonsky e Yoni Goodman recuperam a simplicidade típica da economia de meios da Marvel televisiva dos anos 70, onde os movimentos dos personagens se cingiam ao essencial, prevalecendo uma estática activa, mas este trabalho exaustivo de quatro anos incorpora igualmente travelings por computador e ajustes de cor só posíveis através de tecnologia actual. De realçar também a banda sonora de Max Richter, Bach e Schubert.
O calcanhar de Aquiles de A Valsa Com Bashir é o tom monocórdico dos diálogos, que prejudica a intensidade dos eventos narrados, e a ausência de uma teorização. São descritos eventos militares avulsos, sem que se lhes associe a menor justificação, nem sequer a oficial. A condenação do conceito universal de guerra dispensa especificidades, é certo, mas a invasão do Líbano não foi um fenómeno que ocorreu no vazio, um enquadramento histórico-político teria sido bem vindo.
Waltz With Bashir 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
10 Comments:
outro filme que adorei, mas também concordo que poderia ter sido um pouco mais dinâmico.
em todo o caso creio que no geral funcionou extremamente bem.
a animação é uma boa forma de abordar problemas adultos e situações reais e os desenhos deste filme são realmente muito interessantes. Howl, que vi recentemente, por exemplo, é outro filme com uma componente de animação, mas tão fraca que o filme fica a perder com essa opção.
já tinha lido a tua crítica do Howl,e como tb não morro de amores pelo James Franco não me deu grande vontade em querer vê-lo.
viste o "Persepolis"? esse gostei bastante. achei brilhante a forma como o realizador conseguiu fazer passar mensagem do filme na pele de uma criança de 8 anos que vai crescendo e de como a sua percepção do mundo e da guerra se vai construindo. adorei a sua vontade em querer mudar o mundo. didn't we all in some point of our lives : ) ?
muito bom.
eu, ao contrário, gosto bastante do james franco, acho mesmo que ele teria dado um homem-aranha muito melhor do que o tobey maguire.
mas o filme Howl é muito fraco e nem sequer faz gostar do poema do Ginsberg.
Tenho o Persepolis há anos nunca cheguei a vê-lo, talvez porque os desenhos não me atraiam muito e é preciso estar num mood especial para ver animação. Mas, sim, penso que se trata de uma história muito adulta, vista pelo olhar de uma criança. Foi falta de oportunidade e memória. a vontade de querer mudar o mundo faz-me lembrar a Mafalda ;)
LOL.... sou fã da Mafalda.
qualquer dia sai-me o tiro pela culatra e venho a descobrir que criei um monstro cá em casa....no bom sentido claro : )
mas é bom sentir os miúdos argumentadores, é sinal que lhes desperta o interesse, a curiosidade....é o primeiro passo para se querer saber , aprender e apreender o que se passa à nossa volta.
cross my fingers and hope to pass this curiosity to them, but mostly that they konw how to use what they learn.
vê, creio que não te vais arrepender. pode não te vir a preencher pois és bastante exigente e o filme tem algumas piadas fáceis (ligadas à música, mas depois vais entender), mas foi para tentar falar a linguagem universal. Através da música e das sensações que ela provoca, independentemente do país de onde somos oriundos, consegue-se muitas vezes esse efeito.
questionar é sempre um bom princípio, todas as crianças deviam ser assim.
a irmã da buguinhas tinha 9 anos quando a conheci e era extremamente inteligente. um dia tivemos uma conversa sobre deus. dias mais tarde venho a descobrir pela bugas que toda a família estava alarmadíssima, porque ela tinha deixado de acreditar em deus!!!
mas lá lhe fizeram uma lavagem cerebral e ela voltou a acreditar...
LOL.
o que lhe andaste a dizer para ela desacreditá-lo : P ?
faço ideia, estarias já afamado (pelo menos por uma das pessoas que lá morava) naquela casa, depois disso devem ter desejado crucificar-te não ?
não acho mau acreditar-se em algo superior a nós sabes.
acho mesmo que numa ou outra fase da vida parece fazer mais sentido.
para qualquer um de nós é que é sempre mais fácil fazer a correlação que argue algo do género "se deus existe, porque acontece isto ou aquilo? será injusto"
that's in our nature. se calhar Deus é mesmo um cretino,pois sendo nosso "pai" deveria proteger-nos always and forever. ou então somos todos nós, por o esperarmos : )
bem, eu pelo menos não me parece que com o epíteto de pai ou não, não há ninguém que te possa ajudar a levantar do chão se tu preferires apreciar para sempre a sua rugosidade na tua pele.
foi uma conversa muito simples, apenas lhe fiz ver algumas contrariedades entre a igreja, deus e a realidade. mal sabia que ela depois ia ficar a matutar no assunto.
lol, sim havia um lá em casa para quem eu era "o artista" :D
: P
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