O Dia Em Que A Terra Parou, de Scott Derrickson
Aparentemente, o mundo precisava de outro filme apocalíptico e não havia imaginação para mais. Remake do filme de Robert Wise de 1951, O Dia Em Que A Terra Parou é a última prova do autismo de Hollywood.
O filme original comportava um aviso: a ameaça nuclear inquietava a inteligência extraterrestre, que receava a propagação da violência aos seus planetas e vinha avisar que, se não atinássemos depressa, a Terra seria eliminada. A bomba atómica e a guerra fria eram o pano de fundo da mensagem, que em 2008 é mais ecológica: os extraterrestres não estão preocupados com a chegada de humanos aos seus planetas (quase sessenta anos depois ainda não passámos da Lua), mas com a mera destruição da Terra pelos seus próprios habitantes, sendo que o nosso ecossistema é considerado um suplente viável se os deles avariarem. A frase chave é: Se a Terra morrer, os humanos morrem; se os humanos morrerem, a Terra vive. Do mal, o menos.
Klaatu, o extraterrestre, trazia, no filme de 1951, uma ameaça, mas também uma mensagem de esperança: ainda havia tempo para mudar. O Klaatu actual é mais um arauto da morte, apenas com a sentença na algibeira. O que faria sentido se este filme fosse uma continuação, mas não um remake.
Um Keanu Reeves impenetrável (à nora seria o termo técnico) substitui Michael Rennie no papel de Klaatu, e a ausência de emoção que o seu rosto revela (afirmação contraditória que resume o Método Reeves de Representação) resume o quão o filme se afasta da realidade. O argumentista David Scarpa foi muito claro em entrevista: o público não quer um sermão sobre o ambiente. Infelizmente, descarnado de mensagem, não resta nada para salvar a honra do convento.
O Dia Em Que A Terra Parou tem uma história tão simples quanto nula e, se parece confusa, é apenas por se querer encontrar-lhe uma lógica. Um extraterrestre chega à Terra para falar com os líderes mundiais, mas comete o erro indesculpável de escolher os EUA para aterrar. Como não podia deixar de ser, é enclausurado num complexo militar e estudado em laboratório depois de ter sido alvejado, sem permissão para receber visitas, seja de líderes mundiais ou de familiares aflitos. Como se não bastasse esta recepção menos calorosa, quando se encontra em fuga com a ajuda de uma cientista e do seu enteado, ouve continuamente da boca do miúdo que deviam matá-lo e que, se o seu pai ainda fosse vivo, o teria já morto (curiosamente, a madrasta informa que o marido era militar, mas da área da engenharia civil, o que torna ainda mais absurdo o diatribe da criança). Agora, vejamos: se a única tónica da nova geração da Terra é matar, que esperança pode restar à Humanidade para que os extraterrestres decidam poupá-la? Ou seja, o argumento do filme não deveria ter sido pedido a doentes mentais.
Foram necessárias três empresas especializadas em efeitos especiais, incluindo a Weta Digital (reconhecida pela trilogia Senhor dos Anéis), mas o resultado final parece alcançável através de uma versão forreta do photoshop. E dizerem que a textura de Gort (o ciclope mecânico que funciona como guarda-costas de Klaatu) foi baseada no monólito de 2001: Odisseia no Espaço coloca a questão da necessidade de o outrora tuboso humanóide se confundir com um musculado Surfista Prateado ciclope.
Perguntar-se-ão, no final do filme, se a Terra chegou a parar, como apregoava o título. Pois que só se acharmos que a EDP faz girar o mundo, porque a única paragem a que se assistiu foi a um breve blackout (a chuva de gafanhotos assassina, semelhante a um vento fantasmagórico, não é sinal de paragem, mas de mudança). A máxima do filme, que é veiculada a Klaatu para que suspenda a condenação dos humanos, é que «no precipício, mudamos», i.é, entre a espada e a parede tomamos a atitude correcta. Mas a opinião pública nunca chega a ser informada da justificação de Klaatu, pelo que a destruição da Terra bem podia ser aleatória.
Ao lado de Keanu Reeves, está uma Jennifer Connelly excessivamente magra e um Jaden Smith (filho de Will Smith e Jada Pinkett-Smith) demasiado mimado. Na medida certa, não há nada.
The Day The World Stood Still 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
3 Comments:
deste me uma informação nova. Não tinha ideia que tivessem contratado um argumentista sequer para fazer este filme...
quem pode gastar dinheiro à toa, contrata quem quer, e não necessariamente baseado no mérito profissional.
O argumento não é mau, a invasão já seja conhecida em vários filmes, uns vem para destruir-nos, outros ate são nossos amigos. Mas este curiosamente vem salvar a terra dos humanos, bonito conceito, aliado ao pensamento de agente smith em Matrix que o homem não se assemelha a mamíferos, mas a uma praga que deslocam-se de lugar a lugar a procura de recursos levando ao que todos nos já conhecemos.
Creio que a ideia é boa mas falta-lhe mt mesmo muito. Os Actores, os Cenários.
Nomeado para Framboesa do Ano
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