Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

Deixa-me Entrar, de Thomas Alfredson

John Ajvide Lindqvist publicou o seu primeiro livro em 2004, precisamente Deixa-me Entrar, e desde então tem publicado um livro por ano, tendo o segundo sido uma história de zombies, o terceiro uma compilação de histórias de terror e finalmente uma compilação de crónicas jornalísticas. Foi o próprio autor quem adaptou Deixa-me Entrar para o cinema, ele que já tinha escrito também para séries televisivas. E foi mágico de rua. E comediante de stand up.

Deixa-me Entrar tem uma premissa cativante. Oskar é um menino de doze anos que habita nas imediações de Estocolmo e sonha em vingar-se dos colegas que o humilham na escola. A nova vizinha do lado, Eli, uma menina da idade dele, revela-se uma oportunidade de crescimento, amizade e amor. Mas o facto de ela ter doze anos há bem mais do que doze meses pode ser uma complicação.

No mesmo ano da adaptação cinematográfica de Crepúsculo (publicado em 2005), chega da Suécia um drama muito mais interessante entre um menor e uma vampira. Oskar é ingénuo no que cabe a sentimentos e está numa idade em que não sabe o que é o amor, mas Eli é mais velha. Nunca nos é revelada a verdadeira idade dela, mas é patente que é franzina e recorre a um homem de idade, que a acompanha, para que mate por ela. Quanto mais se dá com Oskar, mais ela se comporta como uma criança. Esta interacção é interessante, mas levanta problemas. Se ela é uma jovem ou uma mulher, apesar do seu corpo, não terá necessidades que não podem ser satisfeitas por Oskar? Ou ter-se-á transformado antes de as hormonas da puberdade se desenvolverem?

O realizador Thomas Alfredson não tem experiência cinematográfica, e nota-se. Há nele uma preocupação técnica inegável e os enquadramentos são cuidadosos, adoptando um compasso melancólico e preocupando-se que este seja adequado à narrativa, mas infelizmente a metodologia arrasta-se na falta de intensidade, fazendo o filme circular demasiado tempo em ponto morto. Um pouco mais de ambição não teria feito mal nenhum.

Há cenas que desiludem, como a agressão de Oskar ao colega ocorrer em simultâneo com a descoberta de um cadáver nas proximidades; a acção não se concentra em nenhum dos eventos e ambos saem diminuídos por essa inépcia. Há uma cena em que um homem desconfiado vai investigar a casa onde Eli mora; mas surge dentro da casa como se se tivesse teleportado, não se percebendo como entrou numa casa estranha cuja porta estaria compreensivelmente trancada. Também a brutalidade da cena na piscina faz torcer o nariz à dificuldade que Eli demonstra em dominar as duas vítimas anteriores.

História de amizade e marginalização, Deixa-me Entrar tem momentos deliciosos na aproximação entre Eli e Oskar, como o diálogo sobre o facto de namorarem não mudar nada entre eles ou os pequenos sacrifícios que Eli faz para que Oskar goste dela. E tem o mérito de apresentar, pela primeira vez, o que pode acontecer a um vampiro se entrar numa casa sem ser convidado.

Apesar de tratar-se de um filme actual e ter sido premiado em inúmeros festivais internacionais, a Overture Films e a Hammer Films adquiriram já os direitos e preparam um remake falado em inglês, a realizar por Matt Reeves, realizador de Cloverfield. Espera-se o pior, já que Cloverfield não se caracterizou pela menor subtileza. E ainda pesa na memória recente o remake apressadíssimo de [Rec] (2007), Quarentena (2008).

Låt den rätte komma in / Let The Right One In 2008

14 Comments:

Anonymous Sam said...

O ritmo escolhido por Alfredson é tipicamente europeu e, por isso, não é imprevisível que seja compassado. O visual do filme (tons frios, em consonância com o clima do espaço onde o filme se desenrola) é, na minha opinião, o ideal para contar esta história, contribuindo, aliás, para que este seja um dos meus filmes favoritos de 2008.

Quanto ao remake, espero que não o "mimem" demais com acção desnecessária...

Cumps. cinéfilos

1/02/2009 1:34 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Caro Sam,

que fique claro que gostei do filme. gostei tanto que fiquei com desejos de ler o livro em que se baseia e de saber mais sobre o seu autor.

contudo, não posso negar que, a tê-lo realizado eu, teria alterado algumas coisas, especialmente na intensidade entre os dois protagonistas. fiquei demasiado com a sensação de estar a ver a história de fora, pela sua frieza e detachment, quando determinadas cenas teriam ganho em serem mais pungentes.

mas é sempre complicado dirigir actores jovens, e provavelmente era impossível extrair mais dos dois escolhidos.

sim, a neve é um cenário apropriado para a história, que lembra aliás "30 dias de noite" e uma curta de stephen king cujo título não me recordo.

mas não concordas com as cenas que referi poderem ser melhoradas?

relativamente ao remake, receio o pior, porque Cloverfield não podia ter sido um filme mais superficial, e o que Let The Right One In precisa é de uma maior imersão nos personagens do que no gore. thomas alfredson já manifestou em entrevista o seu desagrado em relação à mera existência de um remake.

abraço

1/02/2009 9:45 PM  
Anonymous LN said...

Concordo em parte, em muito discordo. Normalmente és implacável, uma postura irremediavelmente imparcial, e custa-te muito elogiar exaustivamente. Um pouco mais de emoção seria melhor, na minha opinião. Mas São critérios e respeito. Ainda que gostasse de ver um TOP 100 de sempre, dos "teus" filmes. E isto é um elogio. :)

Let The Right One Infalando, tal como o Sam, foi um dos meus filmes favoritos em 2008 (escrevi no blog sobre ele, podes ver) e arrisco dizer um dos meus favoritos de sempre na temática (vampirismo).

Abraço,

1/03/2009 3:10 AM  
Anonymous Sam said...

Caro Ricardo,

concordo com o teu ponto de vista, mas também considero correcta a opção estética de Alfredson para este LET THE RIGHT ONE IN.

Por exemplo, a cena final é ainda mais intensa e brutal por, até aquele momento, não sabíamos do que Eli era realmente capaz e julgávamos que a sua fragilidade infantil também se reflectisse na sua "versão vampiresca". Para além disso, aquele clímax é o tónico para a última imagem do filme, capaz de suscitar um sem-número de teorias sobre outros aspectos mostrados durante o filme (que não revelarei aqui, de modo a não estragar a experiência de quem ainda não o viu...).

E, também, concordo contigo sobre o remake norte-americano. Aliás, todo e qualquer remake deveria ser proibido...

Abraço.

1/03/2009 11:48 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Caro LN,

eu sou sempre imparcial, mas imparcial não é ser implacável. imparcial é dar a um filme a classificação que este merece. o espectro não é apenas branco e preto.

let the right one in é um bom filme. mas poderia ser excelente se tivesse limado algumas arestas, precisamente aquelas que mencionei.

um abraço

1/04/2009 11:38 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Caro Sam,

a opção estética foi adequada, mas o realizador podia ter dado mais vida aos dois pequenos.

torci o nariz à cena da piscina precisamente porque Eli apresentara dificuldades em matar um velho e uma mulher de meia-idade (foi inclusivamente pontapeada para longe com facilidade pelo companheiro dessa mulher) e de repente parece uma trituradora. essa cena pura e simplesmente não é credível. e fica igualmente por explicoar porque poupou um dos catraios. no mínimo dos mínimos, era uma testemunha.

a cena final , a do comboio, devia ter sido cortada. já foi criticada por outros críticos. não adianta nada para a história e, afinal, para onde vão duas crianças sem destino nem meios de subsistência?

por acaso, este é um filme em que eu apostaria num remake, já que não é possível voltar atrás e refilmar algumas cenas. gostei do filme, mas acho que podia ser melhorado. infelizmente, não por matt reeves...

Um abraço

1/04/2009 11:39 AM  
Blogger Sam said...

Ricardo,

a cena final, no comboio, traduz-se, na minha opinião, num manancial de interpretações infinitas - por exemplo, recordas-te da relação entre a Eli e o "velhote" durante o filme? Não será aquela conclusão um início/retorno duma relação semelhante, embora de diferentes contornos, em que as duas crianças se protegem/ajudam mutuamente?

Abraço.

1/05/2009 3:34 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Sam,

quanto à última cena, já deu lugar a muitos debates, nomeadamente no imdb, e o escritor / guionista já veio a público dizer que o final é uma história de amor e que nunca teve por objectivo a ideia de que Oskar pudesse substituir o velho, nem que Eli pensava nele nesses termos.

na minha opinião, seria impossível a Oskar substituir o velho. Primeiro, por ser franzino e não ter força para matar e drenar adultos. Além disso, ele continuou a ser contra a violência, mesmo depois de bater no outro, e cobarde, pois não enfrentou os outros rapzes e deixou ser mergulhado na piscina.

mais: com doze anos, Oskar não poderia cumprir sequer a função básica de arrendar casas para Eli. Onde iriam viver, na rua?

Duas questões que não foram afloradas no filme mas que, face ao livro, não funcionam:

a) a idade de Eli : no filme nunca se diz e ainda bem, porque ela tem ar de menina e comporta-se como uma menina; no livro ela tem mais de 200 anos, e mesmo alguém com aspecto de menina teria um comportamento muito diferente do de Eli depois de viver tantas experiências.

b) Eli é, de facto, um menino e não uma menina, e foi capado algures no passado; isso apresenta uma situação de amizade/homossexualidade que o filme não aborda; e se foi capado depois de se tornar vampiro, não deveria o pénis voltar a crescer-lhe? já vi vampiros a cortarem o cabelo e o mesmo a regressar de um momento para o outro.

um abraço

1/05/2009 9:19 PM  
Anonymous Sam said...

Ricardo,

desconhecia esses pormenores, por nunca ter lido o livro, sendo que as minhas opiniões baseiam-se na visualização do filme.

Também não costumo acompanhar os fóruns do IMDB, portanto a ambiguidade do final ainda foi maior para mim :)

Com os teus argumentos de peso, acho que é altura de dizer «I rest my case»...

Abraço.

1/05/2009 10:06 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

ora essa: se os argumentos de peso são meus, eu é que «rest my case» :P

apenas espreito os foruns do IMDB quando o filme me despertou interesse e quero ter acesso a toda a informação disponível antes de dar a minha opinião. e nunca os espreito antes de ver o filme, apenas depois.

1/05/2009 10:13 PM  
Anonymous Nuno Cargaleiro said...

Notícia Red Carpet

Após as filhoses, bolo rei e champanhe, nada melhor do que uma nova edição da Red Carpet para entrar no ano em grande!

Começamos mais um ano que se mostra melhor ainda que o anterior. Bom cinema, e com certeza com algum menos bom, mas acima de tudo, grandes emoções a serem vividas nas salas portuguesas.

Com esta edição chegamos também a um ponto que, muito provavelmente, nem percebiamos que lá estávamos a chegar. Sendo esta a edição de Janeiro, muitos já perceberam que a próxima edição será comemorativa! Um ano de vida da Red Carpet! Mas deixemos as comemorações para a edição que vem… por agora, aproveitemos em pleno esta edição que está cheia de bons conteúdos! Vejam por vocês mesmos! E não tenham receio de opinar sobre a revista, ou qualquer outro conteúdo no nosso site!

http://revistaredcarpet.com/

1/06/2009 2:47 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Caro Nuno Cargaleiro,

ainda estou a perguntar-me se tenho cara de gostar de spam ou se acha que este blog tem mais do que um titular, porque se me dirigiu utilizando o plural.

da próxima vez que tenha ensejo em comentar aqui com um copy/paste de notícias não pedidas, não se esqueça de cumprimentar primeiro nem de se despedir no final. vai ver que a sua abordagem será menos desagradável e oportunista.

cumprimentos

1/06/2009 9:57 PM  
Anonymous Anónimo said...

Esta sim é uma crítica interessante ao filme : http://www.elpais.com/articulo/cine/Besame/monstruo/elppgl/20090417elpepicin_2/Tes
A passagem das hormonas não tem ponta por onde se lhe pegue e faz-me pensar que esse cérebro estava desconectado do olhar ;-))

4/17/2009 9:20 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

não percebi para que foi esse link para um texto em espanhol. não há críticas interessantes ao filme em português?

a passagem das hormonas não tem ponta por onde se lhe pegue? tenho pena que não atinjas o seu significado, mas se pensares que no Crepúsculo só há hormonas, paixão e deslumbre, aqui cabe perguntar se uma vampira transformada antes da puberdade alguma vez terá desejos sexuais ou não. em caso afirmativo, a relação com Oskar seria apenas de amizade; caso contrário, ela necessitaria de amor carnal e Oskar ainda não estava preparado para dar-lhe.

quem não gosta não repete.

4/20/2009 12:05 AM  

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