Frost/Nixon, de Ron Howard
Baseado na peça teatral de Peter Morgan (que escreveu o argumento do filme e de O Último Rei da Escócia), Ron Howard construiu um pequeno character study em redor de uma entrevista (que decorreu ao longo de doze dias, por um período contratado e pago a ouro de 30 horas) e dos seus dois intervenientes, sendo que, tão ou mais importante do que a entrevista propriamente dita, são as motivações do entrevistador e do entrevistado, de modo a perspectivar o evento.
David Frost arriscou reputação e pé de meia numa hipótese remota. Apresentador inglês com um programa ligeiro na televisão australiana, empenhou-se para conseguir entrevistar Richard Nixon, ex-presidente dos EUA. Sem um único canal disposto a comprar-lhe o formato, Frost empenhou-se pelo projecto, financiando-o do próprio bolso e pedindo emprestado. Nixon, pelo seu lado, era o primeiro presidente norte-americano a ser exonerado em desgraça, após o escândalo Watergate, mas aguardava o momento apropriado para regressar à vida política activa.
A entrevista é um combate de boxe, que começa com luva branca e alguns golpes delicados, mas contornar dificuldades vai-se tornando cada vez mais difícil para ambos antagonistas e durante a recta final as luvas são mesmo removidas.
Ainda que o filme não insista na reprovação política, Nixon é apresentado como um grande manipulador e Frost despropositadamente como um pateta alegre, com demasiada areia para a sua camioneta. Até à última data da entrevista, a mesma parece correr mal, funcionando como promoção do entrevistado e evidenciando falhas graves na incisividade do entrevistador, dando como inevitável a morte financeira do projecto, sem garantias de vir a ser comprado para exibição por nenhum canal televisivo. Nesta óptica, o filme depende muito do factor You can’t handle the truth, celebrizado por Jack Nicholson no filme Uma Questão de Honra (1992).
Frost/Nixon não parece um filme de Ron Howard (O Código DaVinci, Uma Mente Brilhante, Apolo 13), realizador demasiado empenhado para que a qualidade lhe venha com naturalidade. Os seus filmes costumam romper pelas costuras, de tal modo aperta os nós para que nada saia do sítio. Em Frost/Nixon, pelo contrário, não se sente essa pressão, antes se assistindo a uma máquina bem oleada e assente numa boa história e em excelentes representações, a lembrar vagamente os dramas BBC.
Não há heróis nem vilões em Frost/Nixon. Nixon é representado com charme por Frank Langella (longe vão os tempos em que foi Dracula) e Frost (que foi lobisomem em Underworld) assume-se como um homem vaidoso que apenas ambiciona voltar a ser famoso na América e não como um cavaleiro andante que quer obrigar o arrogante ex-presidente a capitular. Tanto Langella como Michael Sheen (que já foi o Primeiro Ministro Tony Blair em A Rainha) já tinham representado estes papeis na peça de teatro homónimo, com Langella inclusivamente a ganhar um Tony Award em 2007. Curiosamente, Parry McCormack, que representa a esposa de Nixon, partilha semelhanças com Nancy Reagan, esposa do presidente Ronald Reagan.
Por último, cabe exacerbar a subtileza e a finesse da contagiante banda sonora de Hans Zimmer, reafirmando-o como um dos mais engenhosos compositores desde a segunda metade da década de 80.
Frost/Nixon 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
4 Comments:
Filme interessante q.b., mas o fenomenal em todo este FROST/NIXON é a interpretação de Langella.
Das performances concorrentes ao Óscar que já vi este ano, Langella está, em minha opinião, na pole position para arrecadar o prémio. Gostei mais desta actuação do que a (também excelente) de Mickey Rourke, em THE WRESTLER...
Cumps. cinéfilos.
Sam, o mais fenomenal do filme é a banda sonora de hans zimmer. ouve em CD, é magnífica e dá outra vida ao filme.
quanto ao frank langella, gostei, mas os excessivos maneirismos roubam-lhe a naturalidade. ele parecia demasiado concentrado em não errar um gesto ou uma entoação e por isso achei-o um nadinha demasiado teatral. o que não lhe retira mérito, apenas naturalidade. claro que as entrevistas eram situações de tensão e compreende-se que o próprio personagem estivesse a representar, mas ainda assim...
o michael sheen, por outro lado, está mais natural no seu desespero. apenas fiquei na dúvida em relação à motivação do Frost em relação à entrevista. ele diz que quer ser novamente famoso na América, mas não é a isso que me refiro, é ao tom da entrevista. ele queria adular o nixon, mostrar o seu lado humano ou denunciá-lo? porque, se queria denunciá-lo, fez um péssimo trabalho durante os primeiros dias de entrevista e, pior: nem sequer fez trabalho de casa antes do último dia, e provavelmente não o teria feito se não fosse o telefonema que Nixon lhe fez.
outra incongruência: Nixon tinha sempre sido simpático com Frost, mas no último dia mostrou-se como se fossem inimigos. o que não se justifica, especialmente se ele não se recordava sequer de ter feito a tal chamada para o quarto de hotel de Frost.
ainda não vi O Wrestler. Gostava do Rourke dos tempos do 9 1/2 Weeks e Body Heat, mas não consigo esquecer que ele deu cabo da carreira de propósito e que coisas como Desperate Hours, Double Team e Harley Davidson e The Marlboro Man são horripilantes. Sin City pode ter parecido um comeback, mas Operação Stormbreaker foi um novo afundanço na lama.
abraço
Bom dia,
Envio esta mensagem com o intuito de dar a conhecer o meu recém-criado blog sobre cinema (http://www.additionalcamera@blogspot.com). Sou um amador por estas andanças, mas se lhe interessar o conteúdo do meu sítio, gostaria de receber o seu apoio para divulgá-lo, nomeadamente através da colocação de um link no blog que administra. Colocarei também o seu endereço na minha rubrica “Additional Cameras”.
O meu muito obrigado pela sua atenção!
Sem outro assunto de momento, desejo-lhe as maiores felicidades para o futuro!
Filipe Machado
P.S. – Participe na sondagem "Melhor James Bond com Sean Connery" até ao dia 31 de Janeiro 2009, em http://additionalcamera@blogspot.com.
Sam,
só estou a comentar hoje porque ainda não tinha visto o Wrestler.
achei o rourke apenas sofrível e o filme não me aqueceu nem arrefeceu. a marisa tomei é que tem ali um corpo magnífico ...
eu sei que o mickey recebeu o globo de ouro, mas isso foram politiquices. já se dizia que era o comeback do gajo no sin city...
Enviar um comentário
Links to this post:
Criar uma hiperligação
<< Home