Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles
Baseado no romance do Prémio Nobel Português José Saramago (e com guião de Don McKeller, que representa no filme o papel de ladrão), Ensaio Sobre A Cegueira propõe uma análise social ao factor humano e às suas reacções, quando confrontado com uma situação extrema. Um surto de cegueira coloca de quarentena todos os aflitos, que nesse cárcere têm de adaptar-se à vida sem visão e ao convívio com desconhecidos. Nem tudo serão rosas.
Fernando Meirelles, o realizador, trazia na bagagem duas adaptações ditas imposíveis, que resultaram em filmes de desmedida intensidade. Dotados de preciosismo narrativo, compasso envolvente e cinematografia cuidada, Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro não podiam ser um melhor cartão de visita.
Ensaio Sobre A Cegueira é o seu primeiro fracasso. Uma vez mais, não era uma adaptação fácil, mas desta vez Meirelles não encontrou o tom adequado. Desde o início, o filme não desperta a atenção. Yusuke Iseya não convence como cego. Mark Ruffallo não convence como médico. Julianne Moore não convence como esposa apaixonada. A cegueira em si não convence como recurso ilustrativo. Tratando-se de algo descrito como uma imersão em leite (cegueira branca), por diversas ocasiões a imagem dilui-se e desfoca-se em claridades, mas os momentos escolhidos para tal artifício parecem completamente aleatórios e, como tal, perdidos de significado (pelo menos, que representassem a visão dos próprios cegos, mas é evidente o seu emprego na terceira pessoa).
A pretender-se uma alegoria, há facilitismos que têm de ser engolidos para que a narrativa faça sentido mas, se já é difícil aceitar o sentimento de cobardia e resignação perante uma ditadura de cegos, mais complicado ainda é que as mulheres se prostituam por comida e, pior, que a dividam com os homens com os quais coabitam (mas que não conheciam antes do internamento) que nada fizeram por defendê-las dessa degradação. Este padrão de comportamento já se verificava no livro, mas permanece ilógico. Especialmente pela prontidão com que as mulheres se voluntariam.
Como estudo psicológico, convém frisar a inexistência de qualquer pesquisa prévia ao fenómeno da cegueira, tendo o enredo como fonte única a imagincação do autor do romance. Compreende-se assim a revolta de inúmeras associações de invisuais, já que a película equipara a perda de visão à desumanização, como se alguém que não vê se torne inevitável e progressivamente numa criatura animalesca, imoral, suja e egoísta. Funciona apenas ao nível da conjectura, levando o público a questionar-se como reagiria na situação descrita. A cegueira, o racionamento alimentar, a pressão do desconhecido, a adaptação, a necessidade de criação de uma ordem. Como se determina a lei do mais forte entre iguais?
João César Monteiro, em Branca de Neve (2000), surpreendeu tudo e todos com um filme radiofónico, sem imagens, em que os diálogos provinham de uma tela negra imutável. Fernando Meirelles não quis testar a paciência do público com uma experiência em branco, mas infelizmente não foi capaz de alcançar um meio termo à altura. Filme visualmente banal, Ensaio Sobre A Cegueira é uma triste desilusão também pela construção narrativa e pelas representações. Julianne Moore, à frente do elenco, liga e desliga as emoções de modo mecânico, com a mesma contrariedade com que aloirou o cabelo naturalmente ruivo.
Blindness 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
1 Comments:
Tive a oportunidade de ler o livro antes de ver esta transposição para o grande ecrã. Devo dizer que Meirelles tentou ser o máximo possível fiel ao livro, perdendo assim alguma clarividência na construção do filme. Achei o filme mediano, pouco cativante e com alguns momentos aborrecidos. Enfim, não era nada fácil conseguir realizar um filme desta complexidade e profundidade...
Ricardo, obrigado pela visita ao Additional Camera. Já adicionei o teu blog. Um abraço!
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