Domingo, Dezembro 21, 2008

007 Quantum of Solace, de Marc Forster

No centenário do nascimento de Ian Fleming, Daniel Craig representa pela segunda vez o agente secreto de sua Majestade, agora sob a batuta de Marc Forster, uma escolha invulgar para a cadeira de comando. O realizador tem no currículo um filme inesquecível (À Procura da Terra do Nunca) e meia dúzia de projectos obscuros (Stay – Entre a Vida e a Morte e O Menino de Cabul) e empolados (Monster’s Ball e Contado Ninguém Acredita), mas nem um filme de acção.

Martin Campbell, o homem que conseguiu a proeza de lançar Pierce Brosnan e Daniel Craig nas suas estreias como Bond (e relançou Zorro) rumou para outras paragens e o cargo foi proposto a Roger Mitchell (Notting Hill e O Fardo do Amor, este último com Daniel Craig) e a Paul Haggis antes de chegar a Forster. Haggis, que já limara o argumento de Casino Royale e agora o de Quantum of Solace, terminou o guião duas horas antes da problemática Greve dos Argumentistas de 2007. O realizador de suporte, Dan Bradley, foi contratado por se ter encarregado das cenas perigosas de A Supremacia de Bourne e O Ultimato de Bourne. Para Casino Royale, o realizador de apoio foi Alexander Witt, que estivera associado à Identidade de Bourne.

Com isto em mente, cabe apreciar Quantum of Solace. Funcionando como a primeira sequela (mas rejeitando o conceito de trilogia) na história de 007, o enredo é simplório e inconsistente. Como a EON não detém os direitos do acrónimo SPECTRE, há uma nova organização maligna à solta no mundo, mas ninguém percebe quais os seus objectivos na trama em questão. A seca da Bolívia parece ser uma prioridade, ao ponto de se conspirar para colocar um ditador fantoche no poder, mas o resto fica confortavelmente no ar, permitindo a Bond seguir as pistas sem a menor dificuldade, com a particularidade de obedecer-se à clássica fórmula do cinema pornográfico: não é possível passar de uma cena a outra sem que haja lugar a um curto exercício de violência gratuita bem coreografada, que rapidamente se percebe não ser mais do que um conjunto de set pieces instrumentais.

Olga Kurylenko é a Bond Girl de serviço, uma manequim ucraniana que no espaço de um ano se cruzou com mais dois homens com licença para matar (Max Paine e Hitman). Mathieu Amalric é o quarto actor francês a desempenhar um vilão mas, independentemente da sua nacionalidade, está definitivamente entre os mais serôdios; recusados os seus pedidos de um traço distintivo (uma cicatriz, cabeça rapada, qualquer coisa), o actor amuou e enviou a sua representação pelo correio. Marc Forster queria Bruno Ganz para o papel, mas a produção já assinara com Amalric. Daniel Craig, o mais improvável James Bond de sempre, cimenta a sua personalidade no papel que já ninguém lhe tira. Enérgico e implacável, o actor não deixa pedra sobre pedra. Assim é que é.

Quantum of Solace é, na sua essência, um filme de acção que entretém, mas no campo da espionagem fica-se pelo fait-divers. A aventura é dinâmica mas filmada com academismo e do enredo está ausente qualquer intenção de rigor ou profissionalismo. Não almejando ser mais do que isto, peca pela vulgaridade.

Quantum of Solace 2008

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