Sábado, Novembro 29, 2008

Porque Lutamos, de Eugene Jarecki

Documentário da BBC com honras de exibição em salas de cinema, Porque Lutamos é a pergunta colocada a inúmeros cidadãos americanos que procura determinar qual a necessidade que os EUA têm de criar conflitos armados. A resposta mais escutada é que o faz pela liberdade, mas pela liberdade de quem, quando vai combater do outro lado do mundo, declarando unilateralmente guerra a países soberanos? São tantos os casos desde o início dos anos 50 que pode dizer-se que, a partir de Eisenhower, não houve um Presidente dos EUA que não tenha invadido outro país, seja a Guatemala, o Líbano, Laos, Congo, Brasil, Panamá ou Iraque, entre inúmeros outros. A justificação oficial passou do comunismo para o terrorismo, mas o que se esconde por trás disso?

Com a crítica evidente de, ao contrário de Farenheit 9/11, chegar depois da campanha de reeleição de George W. Bush, e por isso vir despertar consciências tarde demais para as urnas, não há dúvida de que Porque Lutamos é um trabalho superior e intemporal, que coloca o dedo na ferida e aperta apenas o tempo suficiente para que nos apercebamos do incómodo.

Assim intitulado porque esse era o título dos sete filmes propagandistas de Frank Capra durante a Segunda Guerra Mundial, Porque Lutamos abre com um discurso do Presidente Eisenhower, que há quarenta anos atrás já alertava para os perigos do militarismo e daquilo que chamou o Complexo Industrial Militar. Através de depoimentos (entre os quais um muito moderado Senador John McCain) e de imagem de arquivo, o filme corta e cose o percurso belicoso americano desde a Segunda Guerra Mundial até à actualidade, pondo a nu as verdadeiras motivações para a invasão do Iraque e os mecanismos de distorção da opinião pública que conduziram ao apoio incondicional às tropas. Mas o grande mérito deste filme está em não atacar a situação do Médio Oriente como um caso isolado, antes abrindo o leque das vezes que os EUA mentiram aos seus cidadãos com o mesmo intuito.

Gore Vidal chamou-lhes United States of Amnesia e a verdade é que não foi apenas a Guerra no Iraque que assentou numa mentira (a do Vietname também foi despoletada por um evento fabricado, o incidente do Golfo de Tonkin), e até o lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki não foi uma medida para fazer capitular o império japonês (ao fim de seis meses de bombardeamentos sobre as suas maiores cidades, Tóquio já por diversas vezes tentara render-se), mas um grotesco cenário de teste das primeiras armas de destruição maciça mundiais, que custaram a vida a 220 mil civis, para os EUA assegurarem a sua hegemonia.

O documentário explica os alicerces do colonialismo americano, assente na forma de imperialismo comercial, baseado na necessidade de afirmar-se como a polícia do mundo para poder defender as suas desmesuradas ambições económicas à volta do globo. Difundir a democracia pela força não é lutar pela liberdade, mas uma fachada. Por trás disso, está a urgência em alimentar a indústria militar, um negócio que move milhões de dólares e precisa de ser constantemente posto à prova, porque sem guerras não há como usar os novos brinquedos. E os lobbies não querem isso, nem vice-presidentes como Dick Cheney, que enriqueceram à custa da venda de armas. A fechar, uma anedota que corria os corredores políticos em 2003: o Pentágono sabia que o Iraque tinha armas de destruição maciça, porque guardava os recibos.

Why We Fight 2005

2 Comments:

Blogger Nicole Louise said...

Genial!

Indiquei a sua crítica no meu blog, na sessão: "filmes não-acéfalos".

:)

11/02/2009 4:07 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

obrigado.
já vi que tenho por aqui comentados a maioria dos filmes que tens do lado direito do teu blog.

11/02/2009 4:25 PM  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker