O Corpo da Mentira, de Ridley Scott
Ridley Scott volta ao Médio Oriente. Desta vez não é o conflito da Somália de Cercados (2001) nem o confronto directo das tropas com o inimigo, mas um mergulho na poeira do deserto efervescente de um agente da CIA infiltrado na Jordânia, em constante perigo de vida e à mercê de decisões executivas que passam por cima da sua cabeça e podem expor a sua vulnerabilidade em território iminentemente mortal.
História de missões e traições na arena do anti-terrorismo, com um agente de campo a receber instruções de um big brother do governo americano, que monitoriza todos os seus passos através de satélites. Uma vez que é conhecido o custo astronómico de reposicionar um satélite, o realismo fica um pouco a desejar. E também enfastia a eterna insinuação de que os EUA são uma superpotência omnipresente, que faz gato-sapato na sua política internacional, e ainda que invoque sangue e tripas, deixa a sensação de que Ridley Scott não se empenhou o suficiente.
Leonardo De Caprio parece reprisar o seu papel de Diamante de Sangue (2006) e ainda ninguém percebeu que o seu charme juvenil se afundou após o Titanic (1997) e que o substituto adulto peca em canastrice, uma figura enchouriçada e com nesgas por olhos, uma criança em XL a brincar com amigos imaginários, que nunca se confunde com um agente infiltrado. Cameron Crowe é outro erro de casting, demasiado anafado e bonacheirão para convencer como coordenador de missões secretas, transmitindo uma imagem pouco profissional de alguém que boicota as acções dos seus homens, custando-lhes a credibilidade e a integridade física. Uma curiosidade interessante é o facto de Crowe e De Caprio terem contracenado juntos em 1995 em Rápida e Mortal, quando o primeiro acabava de chegar a Hollywood e o segundo só contava 21 primaveras. Nenhum dos dois envelheceu bem e ambos perderam o brilho das suas estrelas.
Em conclusão, O Corpo da Mentira é um conjunto de cenas soltas e mal coladas entre si, apresentando tantas falhas na sua interligação que fica por explicar o objectivo de encenar tamanha desorientação. Como nota positiva, fica a excelente banda sonora de Marc Streitenfeld, colaborador de Ridley Scott em Um Bom Ano (2006) e em Gangster Americano (2007). Marc Streitenfeld foi assistente (desde 1995) de Hans Zimmer, compositor para Ridley Scott de Chuva Negra (1987), Thelma e Louise (2001), Gladiador (2000), Cercados (2001), Hannibal (2001) e Amigos do Alheio (2003). Hans Zimmer também foi, durante anos, o compositor do irmão de Ridley, Tony Scott (Dias de Tempestade, Maré Vermelha, True Romance, The Fan). Com um som distinto do resto da escola MediaVentures (John Powell, Harry Gregson-Wiliams, Klaus Badelt e Steve Jablonsky), o cativante estilo de Streitenfeld, entre contemplativo e obsessivo, tem vida própria e afirma-o como um nome a seguir atentamente.
Body of lies 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Eia! Finalmente um filme que eu também digo mal como tu! :)
P.S. ve se mudas o comment style do blog para "embedded" que é mais pratico para quem comenta. :)
Só porque és amigo, já está embedded :)
pois, o filme é tão mau quanto as expectativas que tentou criar, com a ideia de que até agora nenhum filme sobre o conflito do Iraque tinha conseguido fazer dinheiro e que este ia ser um blockbuster imediato.
mas não nos podemos esquecer que Ridley Scott nem sempre surpreende, como é o caso da desolação que foi A Good Year, de 2006, que não funciona como romance, como comédia, como nada.
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