Mulheres de Guerra, de Jean-Paul Salomé
O realizador do disparatado Arsène Lupin (2004), regressa com uma revisitação de Os Doze Indomáveis Patifes (Robert Aldritch, 1967) no feminino. Tecnicamente competente, apesar do excessivo recurso ao filtro verde azeitona (alguém achou que envelhecia a película), o filme recria com facilidade a época, através do guarda-roupa e do aproveitamento dos cenários, mas é em exactidão histórica que inquina.
A missão que move a trama tem por fim resgatar um geólogo inglês que colhia amostras de areia numa praia da Normandia (nas vésperas do Desembarque), antes que este caia nas mãos dos nazis e possa denunciar (sob tortura) os planos de invasão. Mas foram mergulhadores quem, durante a noite, realmente colheu amostras de areia, rumando imediatamente para a Inglaterra. As praias eram demasiado policiadas para que um geólogo o fizesse por terra.
O segundo erro é a inconsistência da equipa. À excepção dos dois organizadores da missão, um espião e uma sniper do Serviço de Operações Especiais, as quatro mulheres recrutadas não têm experiência militar que as qualifique e não recebem treino de preparação. Para começar, serão lançadas de pára-quedas, à noite, em território inimigo, e irão infiltrar-se num hospital cheio de nazis para resgatarem um doente, com possível recurso a armas de fogo. Falta-lhes o músculo e a resistência psicológica. Para além disso, são todas coagidas a participarem (duas são ameaçadas e outra é seduzida pelo espião), em vez de serem movidas pelo seu patriotismo.
As resistentes são lançadas ao terreno e fazem o que podem, mas o guião deve ter sido das primeiras vítimas da guerra. À falta de camaradagem ou treino, o realizador manda-as seguir em frente, despindo-se, disparando e sendo torturadas a bel-prazer. Infelizmente, no meio de tudo isto, fica a sensação de um enorme academismo que se esqueceu do sentimento.
Não há o menor investimento nos personagens. Tudo o que poderia dar-lhes força é ignorado e os factos mais chocantes são tratados com indiferença (a sniper está grávida e é torturada – terá perdido a criança? Aparentemente, ninguém se rala). Com trinta e oito anos e cinquenta e três papeis no currículo, Julien Boisselier só precisa de duas expressões de intensidade esmagadora para se lhe tirar o chapéu, mas nenhuma das actrizes que figuram no cartaz se destaca. A veterana Sophie Marceau, que foi vilã de Bond em O Mundo Não Chega, continua adorável nos seus quarenta e dois anos, mas a carreira à custa de ser bela não a ajuda aqui, pelo que se limita a parecer durona. As outras não sabem bem ao que andam, e nota-se. Déborah François, que se estreou em 2005 com o puxado A Criança, dos irmãos Dardenne, tem inclusivamente uma cena de nudez ofensiva pela sua grotesca gratuitidade (numa cela, despe-se antes de suicidar-se).
Les femmes de l'ombre 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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