Max Payne, de John Moore
Depois da intensidade das duas tomas de Bourne às mãos de Paul Greengrass e de Casino Royale, a fasquia dos filmes de acção foi exponencialmente elevada. Este ano, apenas as balas curvas de Timur Bekmambetov (Procurado) acertaram em cheio no alvo, sendo que até Chris Nolan desviou Batman (O Cavaleiro Negro) por uma lateral (o policial negro em vez da acção total). Max Payne fica, assim, na linha de fogo, como um projecto incapaz de acender a menor centelha.
Baseado no videojogo homónimo, o filme simplifica alguns dos seus pontos narrativos (a Máfia desaparece do guião e algumas profissões são alteradas), mas segue o percurso da vingança de Payne pelo homicídio da sua esposa e filha e o surgimento da droga valkyr, traficada pela corporação Aesir, nomes nórdicos só porque é bonito. A aparição de criaturas aladas (que parecem saídas de Constantine) transparece como alucinações sob o efeito da droga (mas se assim é fica por explicar porque são visíveis à perspectiva de personagens que não a consumiram), e absorvem demasiado a objectiva (funcionando como cenouras que o burro nunca chega a comer).
Com tamanha simplicidade, tudo o que se exigia de Max Payne era um herói com presença e cenas de acção bem estruturadas e emocionantes. Atirar a Matar, de Michael Davis, tinha almejado exactamente isso, esquecendo-se de ter alma. Clive Owen como badass, porém, era uma grande mais-valia. Como Daniel Craig a encarnar o novo James Bond, um duro tem de ter ar amachucado, bruto e verdadeiro. Mas Max Payne tem apenas Mark Wahlberg, um boneco de madeira que só move lateralmente o pescoço e levanta ocasionalmente um braço armado, esforçando-se por, nesses breves gestos, não distender nenhum músculo desnecessário (O Atirador, de 2007, não ensinou a evitá-lo?). Barbeado, penteado e de casaco preto imaculado, o actor não passa de um anão janota em constante obstipação. E, porque um anão só faz figura com uma anã, escolheu-se Mila Kunis para ficar ainda mais apagada do que ele. Ironicamente, acaba por ser Olga Kurylenko a brilhar, apesar do diminuto tempo de antena; ela que, no prazo de um ano, já se cruzou com três homens com licença para matar: Hitman – Agente 47, Max Payne e James Bond (Quantum of Solace).
Onde o jogo se socorria constantemente do fenómeno bullet time criado por Matrix, o filme pisca-lhe o olho apenas uma vez, numa câmara exasperantemente lenta, com o personagem a dar um back flip enquanto mata um assassino que está numa plataforma. De resto, fica o desperdício e o desnorte de um objecto tão maçador e incongruente como Babylon A.C., em que personagens a mais usam tatuagens iguais (apesar disso, passa despercebido a Payne que a invulgar tatuagem de Natacha seja idêntica à da esposa; é o seu ex-parceiro que faz a ligação). A afinidade entre a droga e as tatuagens, querendo-se óbvia para o espectador as associar, é demasiado forçada (drogo-me, logo tatuo-me com asas de valquíria).
John Moore é um equívoco tão grande como o de Wahlberg. Responsável pelo miserável remake de O Genio do Mal (Omen), e pelos sofríveis O Voo da Fénix e Atrás das Linhas do Inimigo, seria tão improvável este realizador fazer um bom filme como Amaury Nolasco convencer como vilão; o eterno bom gajo de Prison Break, sim, mas como entidade maligna falta-lhe imponência (e a morte do seu personagem é de uma simplicidade vexatória – julgava que tinha acabado o tempo em que o herói era salvo por um providencial disparo de último segundo, ficando a presença do atirador inexplorada). A credibilidade do herói também sai prejudicada pelas suas muitas vidas (é como num jogo de computador): visivelmente ferido nos escritórios da Aesir, logo a seguir está como novo; quando sai do armazém de Lupino, vem a arrastar uma perna, mas minutos mais tarde corre sem dificuldades. E também não havia necessidade de empregar Nelly Furtado num cameo, quando o reino da canção já tinha um pé na porta com a assistência de Ludacris, que já se insinuara em Colisão, de Paul Haggis. Por fim, fica a curiosidade dos dois irmãos Bridges, Jeff e Beau, encarnarem vilões em blockbusters do mesmo verão.
Max Payne 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Não há dúvida que os trailers enganam. O de "Max Payne" enganou-me. Continha em si todas as poucas cenas de real acção e, a acompanhar, o bem escolhido tema de "If I was your Vampire" dos Marilyn Manson. Fui ver o filme e percebi que mais uma vez desperdicei dinheiro numa ida ao cinema. Nem acção, nem banda sonora do trailer! Nunca joguei o jogo de Max Payne, mas certamente deve ser mais emocionante do que o filme. Perde-se muito tempo com as lembranças de Max Payne, a personagem em si parece desprovida de emoções, com os sentidos constantemente dormentes. Acção há pouca e os esperados tiroteios (devido ao facto de ser, supostamente, uma adaptação do jogo de vídeo)contam-se pelos dedos. O final em aberto deixa uma possibilidade aterradora: será que este filme vai ter uma segunda parte? Mais não, por favor!
pois é, Isabel, puseste o dedo na ferida: o problema do wahlberg é parecer desprovido de emoções, e por causa disso não acreditamos que queira realmente vingar a morte da mulher, porque os autómatos não sentem.
quanto à música do trailer, a maior parte dos trailers tem música de outros filmes ou de outras fontes, só em 1% dos casos um trailer tem música do próprio filme.
normalmente, o compositor começa a trabalhar na banda sonora apenas quando o filme está montado, para poder adequar as músicas à duração pretendida.
até compositores como hans zimmer e danny elfman tiveram casos em que a dead line para comporem a banda sonora foi de menos de 15 dias, e isso inclui pensar na música de raiz e ainda conjugá-la com as cenas.
quando dizes que o final ficou em aberto é por causa da dona da Aesir, que ainda está viva?
quanto a uma parte II, deve ficar em stand by por algum tempo, porque as críticas foram esmagadoramente más.
é esperar para ver como ele se porta no box office. no primeiro fim de semana rendeu 18 milhões de dólares, mas ainda há muitas contas que têm de ser feitas.
Ao contrário do Batman, do Super-homem, do Homem-Aranha e do Hulk, o Demolidor continua sem ter sequela, e nem se fala nisso. Vai avançar-se já com um Homem de Ferro 2, com o Capitão América e com Os Vingadores, mas nada de Demolidor.
Isto só para dizer que, mesmo que o final esteja em aberto, isso não significa que alguém pegue no Max Payne.
E, realmente, não sei quem achou que o Wahlberg pudesse servir o personagem. Devia ser alto, atlético, com um rosto marcado e raivoso. Alguém como o Daniel Craig ou o Clive Owen.
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